Um hamburguense de coração nos fez esta canção

Com certeza você sabe que o músico Délcio Tavares é o compositor do hino de Novo Hamburgo. Aproveitei que ele sempre está aqui nas comemorações dos nossos aniversários para saber como foi o processo criativo do hino e da letra e como ele viu e viveu aquela época. Délcio é um gaudério de Tenente Portela, no Alto Uruguai, que como tantos outros virou hamburguense de coração.

O olhar do poeta capta a essência de uma cidade que se desenvolveu com o espírito dos imigrantes aventureiros

O que o trouxe para cá? As abundantes alternativas de trabalho que, por muitos e muitos anos, caracterizaram nossa Novo Hamburgo e quiçá estejam voltando. “Novo Hamburgo representa muito na minha vida. Me causou uma dificuldade imensa para conseguir emprego na área de Recursos Humanos, na qual havia me formado e especializado. Precisei aceitar a função de auxiliar, uma situação bem complicada quando tu ja estás acostumado a gerenciar. Isso me fez optar em definitivo pela música.”

“Até então, eu nunca tinha olhado para a música como profissão. Foi lá por 79 que eu fiz essa opção”, relembra com ar saudoso. E conta que naquele período, o secretário de serviços urbanos era Luís Albuquerque, um homem que amava flores e plantas. “Tínhamos um roseiral na Praça 20 que era uma coisa espetacular, as nossas praças, em via de regra, eram todas floridas.”

“O Parque Floresta Imperial era um jardim, uma coisa espetacular. Aos domingos, a gente ia ao parque fazer churrasco com a família, com os amigos, aproveitar aquele ambiente natural, acolhedor e de uma beleza encantadora.”

Foi inspiração para a letra do hino, eu pergunto? E aí ressurge a história. “Em 1982, o governador dos gaúchos era o Jair Soares, e ele criou o Polo Cultural de Novo Hamburgo. A professora Liene Schutz foi escolhida como gestora e ela criou o festival Canto da Cidade.”

Délcio Tavares mistura ritmos gaúchos e italianos mesclando a tradição sulista com o romantismo europeu

O movimento coralístico era muito forte aqui e Délcio era regente do Coral Luizinho. Foram convidados para inscrever uma música no festival. “Nos enviaram um histórico, contando como foi a ocupação do Vale dos Sinos pelos alemães. Um dia, voltando de Porto Alegre, na descida do Liberato, avistei os únicos prédios altos da cidade, que eram dois: a igreja São Luiz e o edifício da Companhia de Seguros Novo Hamburgo.”

Olhando a cidade tão bonita, tão arborizada, lhe veio naturalmente o refrão neste verso: “Nesse vale tão bonito, entre a serra e o mar, onde fica Novo Hamburgo, minha cidade, meu lar”.  O músico lembra que entrou em solo hamburguense e, dirigindo-se a Canudos, passou em frente à Fundação Scheffel, artista cuja obra tem um valor histórico e cultural imensurável para nós. Nas suas referências o prédio era a Casa Velha. Não era, mas ele acrescentou à letra: “Casa Velha é um recanto onde a arte foi morar”. E isso ficou na música que concorreu no Festival de Canto da cidade.

“Quando foi para oficializar a inscrição no projeto, julgou-se melhor não destacar um estabelecimento ou entidade, mas ressaltar a globalização cultural de Novo Hamburgo. Na hora eu matei a charada e ficou assim: Novo Hamburgo é um recanto onde a arte foi morar e a Fenac do calçado é o orgulho do lugar”.

Em 2006 e 2012, o cantor foi homenageado pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul com o Prêmio Victor Mateus Teixeira (Teixeirinha), na categoria Ítalo-gaúcho

O movimento cultural daqui chamava a atenção de todo o estado. Naqueles gloriosos tempos, Lourival Pereira liderava a trupe teatral com uma turma maravilhosa e com muitos valores. “Eu acho que acabei englobando tudo em quatro frases no refrão. Mas precisava contar a história. Voltei às informações da professora Liene e saiu assim: – Foram poucos imigrantes, vindos lá do fim do mar, desbravaram essas terras, trabalhando sem cessar. Quis valorizar o trabalho desses pioneiros que vieram aqui, desbravaram estas terras. Tudo que vivenciamos hoje é resultado do trabalho que foi iniciado por essa gente.” Nasceu assim o hino de Novo Hamburgo!

Como tu vês a nossa cidade aos 92 anos, Délcio? “Infelizmente a vida pública sofreu transformações profundas. Hoje um gestor público encontra barreiras legais para fazer o que precisa ser feito, má vontade política, parece que as pessoas não querem ver as coisas acontecendo. Isso é lamentável. Mas nós temos uma administração com visão, nossas praças estão voltando a florir e sorrir. Com vontade de fazer acontecer vamos superar o que atrapalha e isso vai nos motivar e inspirar. Para sair alguma coisa que faça sentido e que toque o coração das pessoas, mudar é essencial. ”

Délcio Tavares também compôs o Hino do Esporte Clube Novo Hamburgo, no ano em que fomos campeões estaduais. Em 2016, com o campeonato em andamento, ele escreveu: Esporte Clube Novo Hamburgo, és o time do meu coração, anilado do Vale dos Sinos, teu destino é ser campeão”. E assim foi”

Fotos: Divulgação

PONTO DE VISTA: O que está acontecendo?

Poucos talvez ainda estejam percebendo, mas há um movimento em curso na cidade que pode ser o começo do fim de um ciclo no qual estivemos presos nas últimas décadas. Falo do descontentamento generalizado com as nossas coisas. Passamos anos e anos desmerecendo nossa cidade, desvalorizando nossas conquistas e desacreditando o nosso futuro. Mas eis que de repente, alguém estende a mão, o outro para pra ouvir uma ideia, um terceiro decide não mais ficar mal-humorado e de braços cruzados.

O que está acontecendo? As policias atuando juntas, os cidadãos unidos na revitalização de uma escadaria, de uma praça; os comerciantes do centro discutindo civilizadamente o que fazer para que todos saiam vencedores na renovação da área, funcionários públicos da saúde suando o jaleco para capinar o entorno do seu local de trabalho, entidades se reunindo para planejar ações conjuntas… Não é sonho e isso está me cheirando bem.

Para que uma cidade seja bem vista e admirada de fora para dentro e pela sua própria comunidade, é necessário haver engajamento antes de tudo. Mas este só acontece depois que alguém faz a frente, dá o primeiro passo, chama para si a responsabilidade por uma ação. Me parece que é isto que está acontecendo: atores desconhecidos resolveram assumir um papel que não era seu e começaram a mudar o “script”.

Os mais vividos e os que têm maior conhecimento sobre a história da cidade e tudo o que alicerçou o desenvolvimento social, econômico, cultural e ambiental do município deverão concordar comigo. Quando, num passado bem distante, hamburguenses de diferentes estirpes começaram a se alinhar em torno de ideias e ideais, o que aconteceu foi um salto excepcional na qualidade de vida da população e melhora substancial na educação, na segurança, na saúde e em tudo que você imaginar.

Será que estamos repetindo a história?

 

 

A cultura da confiança na base do negócio – Mandão e Mandinho, pai e filho, passado e futuro

O projeto “Empreendendo nos bairros” foi ali no São José visitar o amigo de mais de 4 décadas, Paulo Roberto Feiten, o Mandão! Ele trabalhou com carnes a vida toda, fez amigos e clientes nessa jornada e até virou marca registrada. Seu apelido saiu da vila, se fez reconhecido e admirado pelos arredores, e voltou pra casa para esperar os clientes, junto do Mandinho. É assim que vamos desenvolvendo a história e nos desenvolvendo nesta cidade.

Pai e filho se aliaram no negócio e seguiram o espírito empreendedor da família

Em tempos nem tão distantes imperavam aqui valores que, atualmente, caíram em bastante desuso, mas não deixaram de ser referência para muitos que vivem e trabalham aqui. O traço aparece bem marcado na história desta família.

A veia empreendedora tem origem no pai do Mandão, que com 2 irmãos e um cunhado, na década de 60, fundou um matadouro. Não havia água nas redondezas e na empresa tinha um poço que reunia uma gurizada em volta. “Era um dos primeiros poços com uma bombinha da região. Eu não queria deixar os guris pegar água, aí botaram o apelido de Mandão.”

Do matadouro os sócios evoluíram para o açougue, que depois fez a fama do Mandão e transformou o apelido numa referência na cidade e na região. “A propaganda boca a boca ajuda muito, mas dá um trabalhão. Fazer e manter o nível de qualidade é o que se propaga, na verdade. Mas o Mandão ajudou.”

Em seis meses o Mandinho Burguer virou “point bacana” para clientes de toda a região

“Paulinho, quando completou 1 ano de Gastronomia na Feevale, quis fazer cachorro quente com uma bike food. Compramos a bicicleta, estávamos com 60% do projeto pronto. Aí ele pegou uma sobra da costela recheada que fazíamos – tinha churrasco todos os dias no açougue – e preparou hambúrgueres. Adoramos. Depois, fez na festinha de uma colega. A gurizada também gostou e deu o brilho.”

No primeiro evento que o Mandinho foi fazer fora, um temporal feio se armou. “Um pé de vento arrancou toda a estrutura do local, e ele tinha comprado as coisas… E agora, pai?” Mandão sugeriu fazer no açougue e a família entrou em ação, todos ligando e convidando amigos. A estratégia funcionou. “Pensa num domingo frio, relembra. Mas as pessoas vieram e ele vendeu 121 hambúrgueres.”

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  “Na terça-feira já avisei o pessoal do churrasco. Semana que vem é hambúrguer. Quem vier, já sabe. O pessoal comeu e gostou. Na semana seguinte ele fez 25, depois 28 e foi crescendo. Quando fizemos 100 numa terça-feira foi uma loucura.” Com a aceitação crescendo, abriram na sexta. Vendeu mais que na terça. Logo, terça e sexta não supriam mais, então, passaram a abrir também nas quartas-feiras.

Mandão faz questão de salientar: “O negócio é todo dele, os méritos são todos dele. O que ele precisou no começo foi um pouco do nome. Mas hoje já tem os próprios clientes, que vêm de toda a região, de Porto Alegre a Gramado.” Ao pai cabe a compra e seleção dos produtos e o caixa.

Mais de 500 hambúrgueres são produzidos e a cozinha é aberta ao público

Desde o tempo do churrasco, no Mandão valia a palavra. Havia um caderno onde o cliente anotava o que havia pego. Hoje, marca-se apenas as comandas do hambúrguer, para controle. Cerveja, refrigerante, sorvete, chocolate, o cliente indica o que consumiu quando vai pagar. Nada é anotado.

Perguntei se o São José é um bom bairro para empreender. ”Acredito que sim. Eu só lamento que alguns proprietários de imóveis não investem em cima, deixam tudo atirado. Isso joga contra o bairro. Espaço para empreender, tem. O que está precisando é dar uma repaginada. Pra gente seria muito bom que tivessem outros negócios na volta. O bairro é bom, nunca tive problemas com segurança.

No açougue, Mandão mudou sua maneira de trabalhar com carne. Está focado em cima de carne para churrasco. “Não tenho mais a carne do dia-a-dia. Tanto é que não tenho mais balcão, meu produto está todo na câmara fria, não tenho expositor. Meu espaço é diferente!

Fotos: Divulgação

PONTO DE VISTA: Águas de março e um mar de solidariedade

Amanhecemos estupefatos, tristes e revoltados no sábado com a precipitação de mais de 120mm de chuva que inundou e destruiu casas, sonhos, negócios e infraestrutura pela cidade afora. Para todos nós que amamos Novo Hamburgo e queremos vê-la cada vez mais pujante, reconhecida e admirada, foi um choque.

Nunca antes havíamos enfrentado uma chuvarada de tais dimensões. Cabe, portanto, salientar a rápida ação da prefeitura, que ainda na madrugada de sábado instalou o gabinete da prefeita Fatima Daudt, a Defesa Civil e as secretarias envolvidas no atendimento aos atingidos. Mesmo assim, houve gritaria nas redes sociais e acusações infundadas. Não estou aqui defendendo ninguém, apenas fazendo uma constatação, motivado, inclusive, pelo alerta de alguns leitores do blog.

Ficamos tristes pelas pessoas atingidas. Ao que consta, foram mais de 10 mil. Entretanto, outras tantas mil arregaçaram as mangas para ajudar na limpeza dos imóveis devastados, na reconstrução, no abrigamento e em toda forma de auxílio. Um mar de solidariedade invadiu a cidade prontamente e isto há de ser destacado. Nossa sociedade demonstrou, mais uma vez, que somos também comunidade, irmanados por uma mesma herança cultural e histórica.

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A revolta, obviamente, também habitou nossos corações. Mas ela era contra quem mesmo? São Pedro? A prefeita? Eles não são os culpados, claro, pelo lixo jogado nas nossas ruas e que vai cobrir bocas de lobo e dificultar enormemente a vazão da água, além de poluir nosso rio, nossos arroios e nascentes. Mas a culpa é sempre de alguém. É só uma latinha de refri, que o catador vai juntar. É só um papel de bala que o varredor vai levar. É só um pingo de consciência que vai mudar nossa capacidade de enfrentamento destas situações imprevisíveis.

Vamos todos aproveitar este infortúnio e nos solidarizar também com o meio ambiente em que vivemos. A cidade que nos recebe precisa ser cuidada para que proteja a gente também. Ela é nossa casa, é de todos nós. E não basta apenas fazer cada um sua parte. Mesmo que você não jogue lixo por aí, não descarte objetos de forma inadequada, há quem faça e há como denunciar. Não podemos mais cruzar os braços.

Meu Ponto de Vista é publicado sempre na última semana do mês, mas não poderia me abster nesta hora tão delicada.

O meio ambiente cultural será o pano de fundo para nossa nova incursão por Novo Hamburgo. Vem com a gente?

Quando se faz as coisas com amor, o universo conspira a favor. A prova está aqui, nesta nova abordagem que adotamos para olhar as coisas boas da nossa cidade. Em função do projeto Bairros de Novo Hamburgo – Jogando a favor do seu patrimônio, acabei por conhecer a Procuradora do Município de Novo Hamburgo, Cinara de Araújo Vila, que aceitou o desafio de me orientar na exploração deste belíssimo tema.

Existe um patrimônio cultural excepcional em Novo Hamburgo

“Este novo olhar dá continuidade ao que já vinha sendo produzido, afirma Cinara. “Quando me deparei com as matérias sobre os bairros, percebi nelas esse aspecto cultural, que bem demonstra o modo de viver no bairro, o que era feito e produzido, quais os afazeres e costumes, as práticas e as experiências de vida dos moradores.

Cinara de Araújo Vila é procuradora do Município de Novo Hamburgo 

O meio ambiente cultural é, para mim, uma expressão nova. Acredito que para boa parcela dos meus leitores também. Cinara explica: “Veja assim: a moradia é um direito fundamental de todos. Mas não é simplesmente a moradia que deixa uma pessoa feliz. É uma moradia digna. Afinal, estamos todos aqui para sermos felizes. E para termos a felicidade como alicerce da nossa existência, a base é o lugar onde moramos. Ele precisa ter a nossa cara, ser o reflexo de quem ocupa o espaço e, por isso, a nossa casa é feita conforme os nossos gostos, assim como o bairro, a cidade, o estado. São porções que expressam o que nós somos.”

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 O assunto é riquíssimo e estou bastante motivado. Conforme me explicou a Cinara,o meio ambiente cultural é a expressão máxima da nossa personalidade. “Ele envolve tudo que diz respeito ao aspecto relacional com aquilo que nos é mais caro: nossa família, nossos amigos, nossa casa, nossa cidade, nosso espaço urbano. Esse ambiente é construído com história, música, arte, cor, movimentos, modo de criar, fazer e viver.”

O meio ambiente cultural é a expressão máxima da nossa personalidade

Portanto, as obras, objetos, edificações, os espaços de manifestação artística, cultural, musical e social, bem como os conjuntos urbanos e sítios históricos – tudo que envolve memórias e histórias, tudo que conta quem somos e para onde queremos ir, faz parte deste ambiente que passaremos a explorar aqui.

O imaterial – o modo de viver das pessoas, os encontros, as amizades, a feira na pracinha, aquilo que é feito nos espaços físicos, mas que fica gravado na memória como uma expressão de sentimentos, emoções e marcos históricos também entra neste contexto e com muita força.

Perguntei para a Cinara quais características ela destacaria em Novo Hamburgo. Nas palavras dela: “Existe um sistema organizacional muito interessante e um patrimônio cultural excepcional. É encantador para qualquer visitante ver a quantidade de casas históricas em Hamburgo Velho, respirar a atmosfera de Lomba Grande, perceber os bairros cheios de vida e histórias no Município.

Há vários caminhos que poderemos percorrer. Posso afirmar, desde já, que será uma experiência interessantíssima para todos nós e gostaria muito de continuar contando com a sua parceria e audiência nesta nova jornada que estamos iniciando. Vamos lá?

Fotos: Marcos Quintana

 

 

 

 

PONTO DE VISTA: Omelete sem quebrar ovos. Como se faz?

Faz de conta! Ou não faz. Para fazer omelete tem que quebrar ovos. Para fazer reformas na casa, tem que quebrar paredes. Para fazer um centro praticamente novo é preciso quebrar e reconstruir muita coisa. Quase tudo. É o que está acontecendo no nosso centro, que vive plena transformação. Causando seus desconfortos, como qualquer obra. Pregando peças, dando prejuízo aqui e ali, como qualquer obra. Fazendo a gente pensar por que se meteu nisso! Como qualquer obra.

Afora as dificuldades causadas ao comércio, que não são poucas e, espera-se, serão temporárias; os transtornos no trânsito já sobrecarregado de Novo Hamburgo; e toda espécie de prejuízo na mobilidade urbana: do ponto de vista imobiliário, vejo uma valorização piramidal na área, assim que as obras começarem a ficar prontas. Como já ocorreu mundo afora, a capacidade de alavancar negócio de regiões revitalizadas vai ocorrer com o núcleo central da cidade.

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“Estudos de cidades do mundo todo elucidam a importância da vida e da atividade como uma atração urbana. As pessoas reúnem-se onde as coisas acontecem. Entre escolher caminhar por uma rua deserta e uma rua movimentada, a maioria das pessoas escolheria a rua cheia de vida e atividade.” Esta conclusão está no livro de Jan Gehl, Cidade para Pessoas. Revela mais:

“Estudos de posicionamento de bancos e cadeiras no espaço das cidades mostram que assentos com a melhor vista para a vida e o movimento são usados com muito mais frequência do que aqueles que não oferecem a visão de outras pessoas.” Ou seja, o comércio também tem que pensar em como melhor explorar as possibilidades de negócios advindas com esses novos ares.

As pessoas se inspiram e são atraídas pela atividade e presença de outras pessoas

Ter negócio, morar ou estar no centro vai valorizar o patrimônio. Ou melhor: já valorizou!

 

Ele vendeu carro até para o Chico Anysio. Seu apelido virou referência em automóveis por aqui.

Você já ouviu falar do João Narciso Ferreira Neto? Não?! E do Bagunça? Esse nome é conhecido por gerações de hamburguenses. Aos 82 anos, ainda cheio de vitalidade, o esposo da dona Ilasy Becker Ferreira é parte viva da nossa história. Quando chegou, trouxe o automobilismo, o Km de Arrancada, o entusiamo do Kart, que virou febre e criou mais de 20 kartistas na cidade. Foi presidente do CNK (Conselho Nacional de Kart) da Confederação Brasileira e é o nosso convidado para o Empreendendo nos Bairros.

“Minha vida foi muito bacana, humilde, mas regrada, com honestidade e fé”.

Como muitos representantes da nossa sociedade, o Bagunça também foi atraído para cá e virou hamburguense por opção e coração. Conta ele que sua história, marcada pelos carros, começa em Gramado, numa corrida de bicicletas com 3 participantes. “Eu entregava compras de bicicleta, tinha uma saúde bárbara.”

Na corrida, um competidor furou o pneu, o outro se atrapalhou e o João Narciso venceu. “Não convencidos, foi proposto uma carreira entre os torcedores do competidor do pneu furado e os meus…. com direito a apostas. Por ter vencido, ganhei uma comissão. Este foi o primeiro dinheirinho que eu ganhei para dar de entrada num auto”. Meu irmão me ajudou e comprei um Fordezinho 39 para botar na praça. Aí comecei minha vida. Passados os anos, troquei aquele Ford por um modelo 1948.”

Com seu táxi, todas as manhãs ele levava de 7 a 8 passageiros por viagem até o colégio, em Canela. Uma das passageiras frequentes era ninguém menos do que Ilasy. “Aí surgiu um namorinho e tal… E eu casei com ela aos 22 anos. Comprei um restaurante, botei um motorista na praça, aí já comprei uma camioneta para o restaurante e fui indo.”

“Certo dia, seu José Perini, dono do hotel Serra Azul, teve problema com sua F100  e precisava ir até a serraria. Me perguntou: – Quanto tu cobra  para ficar uns 2, 3 dias comigo… Depois voltou com uma pastinha e perguntou: – Quanto tu quer por esse auto? Fechamos negócio. Eu já tinha um outro em mente, lá em Caxias do Sul. Fiz uma proposta pelo carro, um Ford 47, e peguei gosto de comprar e revender. Chegava em Porto Alegre, comprava um autinho, vendia em uma semana. Só coisa boa.”

Seu Bagunça mudou para Novo Hamburgo no início da década de 60, a convite do ex-prefeito Atalíbio Foscarini, que era sócio da Novocar. Vendeu duas casas que tinha lá e comprou uma aqui. Com o dinheiro da outra, adquiriu cotas da Novocar e passou a ser sócio da revenda. “O Foscarini viu o que eu vendia de carro lá em cima e disse: – Tu tem que trabalhar com nós. Ele foi um cara muito bacana, eu queria que tivesse mais gente honesta como ele, gente muito boa.”

Uma história clássica de Novo Hamburgo diz respeito aos automóveis Galaxie. “Os primeiros Galaxie que rodaram aqui fui eu que trouxe. Comprava em São Paulo e ganhava com eles um bom dinheiro. Nesse vai e vem, vendi até uma Mercedes para o Chico Anysio. Os primeiros carros importados  também fui eu que trouxe. Quando desembarcávamos os carros chegava a reunir 100 pessoas para vê-los.”

De taxista em Gramado ao pioneirismo em carros importados.

Bagunça está no bairro Ideal desde 1971. Considera o ambiente maravilhoso para os negócios. “Quando eu vim para cá não tinha nem calçamento. O comércio praticamente não existia, esse lado era mais residencial. Atualmente, o bairro tem de tudo.”

 

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O som do trem é sinal de que um novo dia está começando e a vida tem que andar

Fabiane Jubett, mãe do Gabriel, nasceu e vive no centro de Novo Hamburgo até hoje. Mudou de endereço, mas não de bairro. Como diz ela, criou-se subindo lomba. Primeiro a da Joaquim Nabuco e, depois, a da Augusto Jung. Hoje, ainda não mudaria para qualquer outro lugar, mas se isso acontecesse, privilegiaria a segurança e iluminação como algo determinante.

Para muitas pessoas, morar no centro é algo impensável. No inconsciente coletivo, a imagem da área central é a de um lugar inabitável. Muita gente, muita poluição orgânica e visual, barulho, desleixo e criminalidade, para começar. Nunca tivemos tal nível de degradação aqui e, no mundo inteiro, os governos municipais acabaram encontrando justamente aí, a oportunidade de se reinventar como cidade.

Casa das Artes: o Centro está ganhando novos atrativos

“Sempre tive facilidade de me locomover, subindo lombas, é verdade. Mas onde resido atualmente tudo é mais cômodo. Não precisamos de carro para chegar até os bancos, o comércio… A facilidade do ir e vir eu valorizo muito. E usando só as pernas, chego ao trem rapidinho. Tenho um filho pré-adolescente, que quando adulto, poderá estudar ou trabalhar na capital. Ter uma estação de trem perto facilitará imensamente a vida dele.”

Lembro da polêmica que antecedeu a chegada do Trensurb. Alguns não queriam, porque ele dividiria a cidade, como Canoas. Outros temiam o barulho, a desvalorização dos imóveis nas proximidades. “Diferente do que era imaginado, o barulho do trem é insignificante comparado ao dos carros. Além disso, vai só até um determinado horário”, afirma Fabiane. E não é necessário eu dizer o que todo mundo vê: só houve valorização imobiliária.

Fabiane e seu filho Gabriel: a paixão em morar no Centro já é dos dois

“Sou uma pessoa que acorda cedo e o movimento do trem já é parte da minha rotina. Me traz à mente a movimentação de gente, e isso me faz levantar com positividade, sabendo que um novo dia e uma nova oportunidade estão nascendo. Não só eu, mas todos os trabalhadores com seus problemas, suas dificuldades, suas razões e emoções estão vivos, tomando as ruas e a cidade. É a vida acontecendo e eu quero participar. Pulo da cama.”

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Com as obras no centro, Fabiane afirma que é natural a confusão. “É como qualquer reforma que tu vais fazer dentro da tua casa. Dá stress. Imagina mudar uma área grande. É obvio que vai dar transtorno nas ruas, no movimento, mas é consequência, o preço que se paga para deixar a cidade mais bonita. Já vistes as calçadas que estão prontas como estão lindas? E a Casa das Artes?”

Hoje, o que a moradora sente falta é de um mercado mais próximo. Uma loja menor, que suprisse as necessidades básicas do dia a dia e que a desobrigasse de se locomover até um dos mercados maiores. E diz que na sua rua existem alguns imóveis abandonados que acabam atraindo viciados e pessoas que causam insegurança. No mais, é só alegria.

Sobra, entretanto, críticas para quem faz uso do centro e não respeita. “Eu escuto muita gente reclamar do centro, principalmente em dias de chuva, creditando toda a responsabilidade para o poder público. Acho errado vir para cá trabalhar, se abastecer, se divertir e jogar entulhos nas ruas. Com a chuva, vão ser levados para as bocas de lobo. É lógico que depois vai entupir, vai alagar.”

Todo novo dia é uma oportunidade a ser celebrada

Pergunto o que faria o bairro valorizar ainda mais?  ” Não sei como está a situação da antiga sede do clube social Atiradores, mas é um espaço que poderia ser muito bem aproveitado para sequenciar a zona nobre da Mauricio Cardoso, com enorme valorização imobiliária para o entorno. Ficaria um luxo. Imaginem algo diferenciado ali! Eu já imagino”.

Fotos: Marcos Quintana

Foto Fabiane Jubett: Arquivo pessoal

 

Sorvetes no inverno de Novo Hamburgo? Só lá em 1983 começou a ter.

E pensar que hoje ele, o sorvete, está em todo lugar, durante o ano todo. Até em farmácias já tem para vender. Claro que não o da Sorveteria Rei, o mais tradicional da cidade, o primeiro a ser vendido por aqui nos meses de frio e o que melhor representa a capacidade realizadora da nossa gente. Quem conta essa história para o “Empreendendo nos Bairros” é Gabriel Reinheimer, que há mais de 40 anos comanda o negócio no centro, numa dobradinha com Zélia, sua esposa.

Gabriel e Zélia, de funcionários passaram a empreendedores na cidade

Natural de Rolante, Gabriel cursava o eletro-técnico em Taquara e, aos finais de semana, fazia um bico numa sorveteria local. Em 1974, os donos abriram a Rei na Pedro Adams Filho. Três anos depois, convidaram o Gabriel para assumir a administração da loja e a partir daí, ele e sua esposa se dividiram nesta tarefa até concluírem o curso de Direito e o de Belas Artes, respectivamente.

Em 1982, mesmo ano em que terminou sua graduação, surgiu a oportunidade para comprar a sorveteria de Novo Hamburgo. E, assim, os dois puderam continuar construindo essa história que também é um pouco de todos nós. Duvido que exista viva alma daquele tempo que não lembre do significado e da importância da Sorveteria Rei para a sociedade.

“O pessoal gostava de sair do Cine Avenida e tomar um sorvete. Tinha uma época que jovens do movimento religioso do Centro vinham nos domingos à noite, colocavam as cadeiras na calçada e cantavam ao som de violão. Muitos deles, hoje, são professores, médicos e empresários da nossa cidade.”

2 dorm com suíte
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Antes, todavia, o sorvete não era um produto fácil de se encontrar por aqui. Alguns poucos bares e as bancas tinham para vender, no verão! Era uma ousadia quase que impensável investir num negócio com a sazonalidade que o produto apresentava na época.

“Antigamente as pessoas tinham o costume de só consumir sorvete quando estava muito quente. A sorveteria funcionava de setembro até maio e encerrava totalmente as atividades, voltando a abrir só 4 meses depois. Fomos pioneiros em trabalhar exclusivamente com sorvetes.”

Interior da franquia na cidade de Cuiabá (MT)

Em 1983, Gabriel botou na cabeça que precisava criar alguma alternativa para enfrentar o inverno. Foi atrás de uma parceria que lhe possibilitasse ofertar algo diferente para poder manter a loja aberta no período de baixa. “Estava muito na moda o chocolate caseiro de Gramado e investimos nisso”, lembra. Novamente, a Sorveteria Rei foi pioneira com sua estratégia de negócio.

“Nisso, fui surpreendido. O que mais vendemos no inverno com a loja aberta foi justamente o sorvete”. O casal descobriu que se não havia sorveteria aberta no inverno, lógico, não tinha sorvete e, portanto, as pessoas não tinham alternativa de escolha. Outra descoberta deles a partir da situação criada: não precisavam de chocolate para manter a operação. E, assim, o negócio passou a funcionar o ano todo.

Em 1994 montaram seu primeiro buffet de sorvetes e aí as vendas deslancharam para valer. “Opções como a cobertura de chocolate, a parte seca, que não é gelada, e os doces que passaram a ser ofertados como acompanhamento quebram o gelo do sorvete e isso agradou muito”, comenta Gabriel.Os anos passaram e chegou o tempo em que ele pensou que já era hora para o descanso do guerreiro. No seu caso, do sorveteiro. Ledo engano. Havia mais trabalho a ser feito. O novo desafio: colocar o conceito de sorvete artesanal que a Rei sempre teve num produto industrializado. Era 2013/2014 e ele resolveu deixar a aposentadoria para depois, e, talvez, quem sabe, um dia desses. Por enquanto, eles têm uma fábrica para tocar e franquias para administrar. O Sorvetes Rei distribui seus produtos por diversos pontos do varejo e nas suas franqueadas, que já estão até no centro-oeste do país.

Sorveteria Rei na cidade de Rondonópois (MT)

O que representa a sorveteria para estes dois batalhadores incansáveis? O Gabriel não tem dúvidas: “A sorveteria é um programa de família, continua sendo um hábito saudável, reunindo em algumas oportunidades até 3 gerações. Um local sem venda de bebida alcóolica. De celebração da vida.”

E sobre o Centro, eu pergunto. O que tens a dizer? “Vejo o centro de Novo Hamburgo com saudosismo, pois era mais humanizado. Tínhamos 3 salas de cinema, o Café Avenida… Espero que a revitalização traga mais vida, famílias caminhando com segurança e que Novo Hamburgo se transforme em uma cidade diferente como sempre foi. Uma cidade que receba bem, trate bem dos seus, ande para frente, nos orgulhe de ser hamburguenses.”

 

 

 

 

PONTO DE VISTA: Pequenos gestos mexem com valores

O que faz uma região da cidade ser mais valorizada do que outras? O que faz duas casas semelhantes no mesmo bairro terem valores diferentes de comercialização? Não é difícil responder: os lugares mais valorizados são aqueles onde há maior oferta de serviços e equipamentos urbanos.

Uma boa estrutura no entorno puxa os preços para cima. O movimento intenso de pessoas e serviços aumenta a valorização. A calçada limpa, bem conservada e a rua florida e bem iluminada, também. Óbvio, não é? Então, por que a grama do vizinho é mais verde? E o imóvel dele vale mais que o outro que está no lado oposto da rua?

Acontece que o desenho da cidade se desenvolve por meio das pessoas que influenciam a região. Se um grupo quer melhorias e se engaja para construí-las, fatalmente, alcança. Uma floreira, uma praça, um fechamento de rua aos domingos não são coisas impossíveis. Estamos falando de pequenas atitudes que fazem grandes diferenças. As grandes coisas causam impactos maiores ainda. Só não se concretizam sozinhas. Onde existe a cultura da tradição, da inovação e do melhoramento, seja através da arte, seja através do urbanismo, seja por meio do resgate histórico, há projeção imobiliária. O patrimônio de cada um se valoriza, quando se muda a percepção do todo.

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Jorge Trenz
 Como trato com o mercado imobiliário, busco conhecer o desenvolvimento urbano da cidade. Foi assim que teve início o projeto Bairros de Novo Hamburgo – Valorizando o seu Patrimônio. Vamos seguir explorando este caminho, cada vez mais certos de que aquilo que fazemos de bom pela cidade, reflete no bolso de cada um de nós.