PONTO DE VISTA: Quem quer dinheiro para comprar ou investir em imóvel?

Tomei emprestado parte do bordão do Sílvio Santos para chamar atenção sobre a novidade que me trouxe Jairo Manfro, Superintende de Negócios de Habitação do Vale dos Sinos da Caixa Econômica Federal: a Caixa está voltando a atuar com bastante força nos financiamentos de casa própria de médio e alto padrão.

A superintendência de Manfro atende 63 municípios da região e Novo Hamburgo se destaca neste cenário.

Mas o que é considerado imóvel de médio e alto padrão para a Caixa? São valores acima do teto do Programa MCMV ou FGTS. Para Novo Hamburgo, o enquadramento é para imóveis acima de R$ 190.000,00. O orçamento a ser liberado soma R$ 20 bilhões, podendo ser ampliado. Manfro diz que a Caixa trabalha com expectativa de melhoria no cenário econômico.

Apto 3 dormitórios
Jorge Trenz
 Os financiamentos destinam-se para a compra de terreno e construção, compra de apartamento na planta, compra de imóvel novo ou usado e compra de um segundo imóvel. O objetivo é acelerar a liberação dos estoques mantidos pelas construtoras, permitindo a retomada de novos empreendimentos. Essa linha de crédito já está à disposição em toda a rede caixa e correspondentes bancários.

Segundo o superintende, Novo Hamburgo é uma cidade diferenciada na região. Tem um nível de renda melhor, grande capacidade de investimento e imóveis de alto padrão. Manfro destacou que o banco tem recursos também para a pessoa jurídica. “As incorporadoras que desejam lançar um empreendimento pela Caixa podem nos procurar. A Caixa tem crédito e condições de financiar o empreendimento também”, afirma.

Em fevereiro de 2017, na matéria “A Construção de um novo cenário no ambiente imobiliário” eu dizia que nada ficaria igual após o vendaval que varreu a economia verde-amarela. O segmento imobiliário passou por um período tenebroso, mas as coisas, aos poucos, estão começando a mudar. Então, atenção. Pode ser a sua hora.

 

PONTO DE VISTA: Para que lado agora? Que tal em frente!

“Novo Hamburgo já era”, com Luís Coelho, foi um dos títulos mais controversos publicados aqui até hoje. Foi uma cutucada proposital e providencial para tentar entender um pouco mais sobre nós que crescemos, vivemos ou moramos nesta cidade o suficiente para ter acompanhado o forte processo de desenvolvimento patrocinado pelo calçado em várias áreas fundamentais. E, também, a retração e as mudanças contundentes ocasionadas pela realidade imposta quando perdemos importantes mercados internacionais.

A moeda rodopiou e dois lados mostrou: os dois, saudosistas. Sentimos falta, todos, daqueles bons tempos de empregos fartos, fábricas grandes, boas escolas, segurança e crescimento. Quem não sentiria? Sociedades que não tiveram ainda essa oportunidade, acredite, trabalham muito pra ter. Nós já tivemos e agora vivemos com a sensação do não ter.

Casa em Ivoti
Jorge Trenz
Na entrevista, Luís Coelho traz uma reflexão curiosa. Aquilo que fomos, se não era, tornou-se um projeto coletivo. Crescemos em torno de uma ideia: o sapato. Fizemos o Senai, escolas preparatórias, sequenciamos uma fábrica, um projeto de negócios. Isto viralizou e mostrou a oportunidade que a necessidade do outro abria. Criou-se, assim, nossa autossustentável cadeia coureiro-calçadista. “Que evoluiu e não morreu”, como afirma Coelho http://blog.trenznegociosimobiliarios.com.br/2019/05/16/novo-hamburgo-ja-era-e-agora-como-será/

Pode haver controvérsias, mas é um excelente ponto de vista. Além de calçar as pessoas que vivem no planeta, temos oportunidades para voltar a ser protagonistas em áreas relevantes do futuro. E qual a importância de ter uma universidade envolvida nisso? Quem nos esclarece é o reitor da Feevale, Cléber Prodanov, na entrevista que fiz para a revista Expansão de junho.

Novo Hamburgo já era. E agora, como será?

Luís Coelho é um profissional que sabe muito sobre nosso passado, nosso presente e nosso futuro. Ele atua há mais 20 anos no setor de calçados, bolsas e manufaturados no Brasil, Colômbia, Equador, Peru, Uruguai, Chile e Portugal. É o presidente da Coelho Assessoria Empresarial e afirma com convicção que, apesar dos percalços, seguimos ligados ao calçado.

Segundo Coelho, dizer que o setor acabou é, no mínimo, falta de conhecimento.

Nossa história com o calçado começou no século XIX, com os primeiros imigrantes alemães que vieram para cá e, a partir da fabricação de peças de selaria, com o couro que eles mesmos curtiam, criaram, uma outra indústria. Começaram a surgir as primeiras empresas calçadistas e isto provocou o surgimento de uma cadeia produtiva para apoiar essa indústria: surgiram os produtores de solados e dos vários componentes que vão no calçado.

A cidade cresceu firme e forte alicerçada por este segmento. Nos tornamos referência em diversas áreas por conta da produção de calçados. Só que o mundo mudou e a China chegou. “Desacreditamos do calçado quando, há 30 anos, a China começou a produzir numa escala absurda. Recaiu sobre Novo Hamburgo a sensação de que o calçado havia acabado aqui e a cidade com ele.”

Uma casa moderna
Jorge Trenz
  É do jogo. Na década de 90 os governos da Bahia e do Ceará identificaram o que os chineses viram antes e nós antes deles: o setor absorve muita mão de obra e isso ajuda a desenvolver cidades interioranas em qualquer lugar do mundo. Então, fizeram ofertas maravilhosas de incentivos fiscais e as empresas, até para subsistirem e aguentarem a concorrência com a China, abriram plantas nesses estados. “Tem empresas lá com 75%, 90% de isenção do ICMS, as vezes até 100% de isenção do Imposto de Renda”, diz.

Construções com design arrojado e matérias-primas diferenciadas são atrativos para o mercado externo.

Na visão do consultor, precisamos mudar a percepção. Pelo tempo e convivência que tem com o segmento, é claro que o Luis sabe do que está falando. E para ele nós não quebramos, nós evoluímos. “Se olharmos para as grandes cidades veremos que a indústria não está mais ali, a não ser que se tenham distritos industriais. Estamos nesta fase de nossa caminhada.”

Na verdade, mesmo tendo perdido muitas plantas industriais para o norte e nordeste, nenhuma empresa importante fechou as portas aqui. Toda a área administrativa, marketing, compras, comercial, desenvolvimento de produto ficou no Sul. Se juntarmos as 10 maiores empresas de calçados do Brasil, pelo menos 9 são gaúchas da nossa região. Estamos seguindo nosso destino, como todo centro em  desenvolvimento.

“Nós temos o maior “cluster” de calçados do Ocidente. Temos o gado no campo, a indústria petroquímica, comercializadoras, trading, logística. Tem tudo aqui. Então, acabou o quê? Nós temos a massa crítica, que é fundamental. O IBTeC – Instituto Brasileiro de Tecnologia do Couro, Calçado e Artefatos está aqui.

Todas as entidades de classe estão sediadas em Novo Hamburgo (couro, calçados, máquinas, componentes). Temos a Feevale que está resgatando, através do Centro de Design e dos seus cursos de engenharia de produção, uma participação importante, ainda que tímida nesta cadeia. A maior feira do Ocidente de componentes e máquinas está aqui. Dizer que o setor acabou é, no mínimo, falta de conhecimento.

Setor calçadista: uma cadeia industrial criativa e em constante desenvolvimento.

Pergunto se dentro da nova realidade mundial, a indústria calçadista é ultrapassada. Luis acredita que é o contrário. “Empregam-se tecnologias sofisticadíssimas em todos os processos e o setor paga muito bem ainda. Tem modelistas recém-formados ganhando R$ 5 mil, aqueles com mais tempo na função já ultrapassando R$ 10 mil. Estilistas com conhecimento e experiência ficam na faixa dos R$ 40 mil.”

Que profissão remunera dessa forma em poucos anos? E tem a área de produção, o comercial… A indústria de calçados é uma grande alternativa para quem quer se desenvolver, ganhar bem, viajar, conhecer outros países. O setor é muito poderoso e, talvez, devemos mesmo botar mais fé naquilo que aprendemos a fazer tão bem.

“O mundo vai continuar crescendo, a população vai continuar usando sapatos. A produção mundial está em torno de 23 bilhões de pares. O Brasil está próximo a 1 bilhão. Claro que aí tem muito de sandálias de dedo mas, mesmo assim, nós somos um grande produtor, o Vale do Sinos continua sendo um dos principais produtores no Brasil. Para o calçado acabar por aqui precisaremos fazer muita coisa errada. Mas estamos no caminho certo” conclui.

 

 

Pedras no sapato fizeram empresário mudar o rumo e virar sucesso

Ele transformou a desesperança em vistosas peças decorativas. Ítalo Holzbach nos mostra como a arte de ser transcende em muito a efêmera sensação de poder. Exportador de calçados para redes internacionais como Walmart e Payless em áureos tempos, perdeu clientes e mercados para a competitividade de alta voltagem dos chineses. Acabou, assim, criando a Rosa Tropicana, no bairro Vila Rosa.

Ítalo conseguiu associar prazer ao trabalho e isso faz com que tenha energia para continuar produzindo

“Quando deu o baque no sapato eu vendia bastante para os Estados Unidos. Viajei para lá, tentando defender minhas posições. Numa noite fui jantar com o pessoal do Walmart. Ao meu lado, sentou-se um americano e a gente começou a conversar. Perguntei a ele o que fazia: – Estou fazendo pedras, ele disse.

Como assim, fazendo pedras? Eram pedras decorativas, fakes, explica Ítalo. 0 americano propôs que trouxesse a novidade para o Brasil. “Olha, estou envolvido no sapato, não tem nada a ver pedra com sapato.” Trocaram cartões e Ítalo voltou para Novo Hamburgo. Passados uns cinco anos, o dragão tomou conta de 100% dos negócios do empresário. Aí não teve mais jeito.

“Não tinha clientes na Europa e minha carteira era de varejistas que vendiam artigos de preço baixo.” A história de Holzbach era com o sapato, como quase toda Novo Hamburgo. Lembrou-se, então, do sujeito que lhe propusera produzir pedras no Brasil! Ligou para ele e conseguiu, aqui, um sócio para iniciar uma nova história. Adquiriram a matrizaria e a tecnologia necessária do americano e começaram a produzir.

No primeiro mês venderam 600 metros de pedra, logo saltaram para 800 e chegaram a 1.000 metros. Mas o negócio não se mostrou tão promissor quanto imaginado. “Depois de 3 anos pensei que teria que mudar novamente de mercado. Foi quando o mundo me fez ver um outro nicho na decoração: os vasos.”

Ítalo nunca fizera vasos, mas também não fizera pedras até se obrigar a fazê-las. “Contratei dois sujeitos para trabalhar, mas combinava com eles às 6h45 e eles chegavam às 8 horas. Aí contratei um pessoal que fazia vasos no Portão. Mesmo problema, era impossível depender 100% da mão de obra.”

Os vasos exercem um papel importante no contexto paisagístico.

A solução foi empregar o processo adotado no início, com as pedras. Chamou um matrizeiro, estudaram como viabilizar as matrizes para que qualquer pessoa pudesse tocar a produção e deu certo. Olhando melhor o mercado, Ítalo percebeu que não tinha ninguém ofertando esse produto no Brasil e se expandiu. Virou um sucesso.

Arquitetos famosos do Rio e de São Paulo descobriram o trabalho do hamburguense e começaram a procurá-lo. “Paulo Lúcio é um cara que faz somente hotéis e atende a rede Maksoud Plaza. Ele disse: impressionante o que tu estás fazendo, porque até agora, se eu precisasse comprar 50 peças, não encontraria iguais. Fiquei tão empolgado que mandei um vaso para ele de presente. Ele colocou ao lado da sua cadeira de descanso.

A Rosa Tropicana entrega em todo o país e atende principalmente sob encomenda, pois tem uma cartela de 700 cores. O cliente escolhe o modelo e a cor que se adequa ao seu projeto ou gosto pessoal. Em 5 dias úteis o produto está pronto. Junto à fábrica há um showroom com pronta-entrega.

Vasos de modelos diferenciados e com cores especiais garantem que o ambiente deixará de ser comum.

A escolha do bairro Vila Rosa para empreender não foi planejada, afirma, mas considera que, geograficamente, o lugar é muito bom. “Quem se desloca para Estância Velha, Ivoti, Dois Irmãos, passa pela região. Numa ocasião resolvi fazer um controle de quantos carros passam aqui na rua. Dá 700 carros por hora. O estacionamento é fácil e consigo fazer do meu ponto uma publicidade permanente. Tenho vendido bem para médicos de Porto Alegre que trabalham no Hospital Geral.”

Perguntei quais características do bairro Vila Rosa ele destacaria. “Para os moradores é muito prático. Tem hospital, 2 supermercados, postos de gasolina, academia pública, é silencioso, próximo do Centro. No momento ele está completo.” Mas na sua opinião, deveria-se evitar mais asfalto e plantar mais, pois tem muitos lugares sem árvores. “O problema maior é quando dá essas enxurradas e o arroio lá embaixo transborda.”

PONTO DE VISTA: A cidade muda o cidadão ou o cidadão muda a cidade?

Sentado num banco da praça Punta del Leste observando o movimento e burilando as ideias que mais tarde eu teria que estruturar para compor a matéria que publiquei aqui no blog semana passada, essa questão se meteu entre os meus pensamentos. Não lhe dei muita atenção porque não era o foco e tampouco estava a fim de procurar uma resposta que, de antemão, sabia que não encontraria assim, facilmente. A coisa é complexa.

Mas quem cutuca onça com vara curta deveria saber que toda ação provoca uma reação. Ela veio pela manifestação dos leitores e, quando percebi, estava enredado e de novo querendo saber: nós agimos sobre a cidade ou a cidade age sobre nós? Sucedeu que entre comentários, mensagens e e-mails aprovando a nova estrutura da praça, houve também os insatisfeitos. Um exemplo: “Os bancos não têm encosto, isso é um absurdo!”

Acredito que as melhorias devem ser uma prática constante. É um ciclo que nunca acaba. Se está ruim, precisa ser melhorado. Se está bom, pode ficar melhor ainda. Mas é um passo a passo, cada coisa a seu tempo. Os bancos não têm encosto? Só de raiva vou sentar sobre as floreiras. Assim mostro meu descontentamento com esta incompetência absurda de quem não botou encosto nos bancos!

Fiquei em casa matutando: saberemos preservar e aprimorar as mudanças que estão acontecendo na nossa cidade como uma sociedade que busca um desenvolvimento coletivo? Estamos preparados para um ciclo positivo de melhorias constantes?

Quando comecei a escrever o blog, o primeiro tema foi “Jogando a favor do seu patrimônio”. Como Consultor Imobiliário, tenho interesse que Novo Hamburgo seja o melhor lugar do mundo, porque isso valoriza os imóveis, óbvio. Cuidar da calçada, da rua, do bairro, penso eu, é dever e deveria ser do interesse de todo mundo. Da cidade, então, nem se fala. Mas tem sempre quem só vê o lado negativo e aí joga contra. Do meu ponto de vista, cidade e cidadão são agentes transformadores para o bem e para o mal. E do seu?

 

Da desatenção ao centro das atenções. O novo papel da Praça Punta del Leste

Com certeza está bem viva na sua memória a visão proporcionada pela Praça Punta del Este até poucos anos atrás. O abandono a que foi relegada a área serviu como chamariz para drogados e deu liberdade de ação para pichadores, vândalos e todas as categorias de pessoas dispostas a degradar os bens públicos e intoxicar o ambiente social com suas práticas deploráveis.

Revitalizada, a praça tornou-se um lugar aprazível e frequentado

Inaugurada em 25 de maio de 1989 como uma retribuição da nossa cidade à homenagem prestada pelo balneário uruguaio de mesmo nome, que desde 1960 possui uma rua batizada de Calle Novo Hamburgo, a Praça Punta del Este viveu anos dramáticos, principalmente após a construção do elevado metroviário. Localizada bem em frente ao Bourbon Shopping, o espaço transformou-se numa vergonha municipal.

Finalmente, em 2017, a prefeitura conseguiu sensibilizar a Trensurb para que cumprisse o compromisso de revitalizar a praça. O local recebeu serviços de ajardinamento, pintura, instalação de decks e outras melhorias. Devolvida à população em condições de uso, limpa, segura, atraente e reurbanizada, foi ocupada por quem realmente tem direito sobre ela: os cidadãos.

A praça ganha destaque como ponto de encontro para manifestações diversas

A praça voltou à vida e virou “point”. Hoje ela é referência para ações diversas, que vão do lançamento de campanhas sociais (trânsito, vacinação, etc) a ponto de encontro de grupos que querem promover a cultura ou manifestar suas opiniões. Você já pode até sentar-se ali para ler um livro. Esperar o namorado, a namorada. Pensar na vida. Ver o tempo passar, simplesmente, com suas belezas e surpresas. É outro lugar no mesmo local.

Entretanto, “temos que aproveitar com responsabilidade”, alerta Marli, da Comur. Ela é responsável pelas plantas e diz que a população deve se apoderar do espaço e cuidar dele. “Não pode trazer seu pet para fazer xixi nas plantas. E tem gente da vizinhança que faz isso, por incrível que pareça.” Ela salienta que os bichinhos, quando vão cobrir as necessidades estragam as plantas. “Também tem gente que senta nos espaços ajardinados, sobre as plantas.”

Marli, da Comur, trata com carinho da manutenção das plantas

Guardadas as proporções, vejo a Praça Punta del Este ganhar uma importância similar a da esquina democrática, na capital. Todo mundo sabe onde é e o lugar é de todos. Mas precisamos mantê-la e melhorá-la, não deteriorá-la novamente. Se foram-se os vândalos, que venham as pessoas de bem, com seu chimarrão e suas cadeiras, suas ideias e seus sonhos.

Tenho defendido, desde que iniciei o blog, que os guardiães da cidade somos todos nós. Aqueles que a habitam e aqueles que a administram. A formação da atual ocupante do poder executivo, a prefeita Fátima Daudt, felizmente nos faz compartilhar da mesma visão.

Isto me incentivou a aprofundar o entendimento sobre a questão e propor o tema “meio ambiente cultural” para trabalhar neste ano. Prontamente, recebi a atenção e a orientação da procuradora do município, Cinara de Araújo Vila, que se dedica a estudar e aprimorar a convivência entre as pessoas e a cidade, seus monumentos, sua história, sua cultura, sua evolução. Uma abordagem riquíssima, que continuaremos explorando aqui, olhando sempre para nossa Novo Hamburgo.

Fotos: Arquivo pessoal

 

Aeródromo de Novo Hamburgo. Formando comandantes de boeing

No extremo leste da cidade se ensina a voar alto. Muito alto. Lá, em 1947, o antagonismo entre hamburguenses e leopoldenses criado pela emancipação fez surgir o aeroclube de Novo Hamburgo. Conversei com o atual presidente, Alceu Feijó Filho, que nos comanda nesse voo.

A escola de pilotos e o paraquedismo destacam nosso aeródromo

Menos de 100 municípios no Brasil possuem uma escola de aviação como Novo Hamburgo tem hoje. Você sabia disso? Poucos sabem. Somos uma referência para aviadores e temos o segundo maior centro de paraquedismo da América Latina. Mais de mil saltos são feitos por mês em Novo Hamburgo. Nosso aeródromo é o único  homologado na região e tem alunos do Brasil todo.

O ensino aeronáutico é universal. “O que ensinamos aqui é o que os alunos estão aprendendo em Tóquio, no Canadá ou na Austrália”, diz Feijó. O impacto do aeródromo para o município poderia ser economicamente muito maior. “Nos tempos da grande expansão calçadista, os empregados chegavam pela rodoviária. O investidor, hoje, vem pelo aeroporto. Se puder facilitar sua locomoção, certamente o fará”.

Alceu Feijó Filho é o presidente do Aeródromo

Feijó acredita não ser coincidência que todas as cidades visitadas pela Havan no estado permitam o pouso do jato do empresário Luciano Hang. Asfaltar a pista é fundamental para receber jatos executivos. O investimento, calcula-se, é na casa dos R$ 2,5 milhões, mais a Iluminação noturna. Isso, certamente, mudaria a cidade.

Imagine jatos executivos pousando e decolando de Novo Hamburgo. “A nossa pista é muito boa em dimensões, muito segura, mas é de grama e brita. Excelente para as atividades do aeroclube, mas não para este tipo de aeronave.”

A união de todos pelo asfaltamento da pista vai colocar Novo Hamburgo em outro patamar de desenvolvimento

O aeroclube é importante em diversos aspectos. Muitos artistas que vêm fazer shows na região descem ali. Para os negócios, ter uma pista qualificada é ouro.

Vamos conversar sobre isso?

 

Um hamburguense de coração nos fez esta canção

Com certeza você sabe que o músico Délcio Tavares é o compositor do hino de Novo Hamburgo. Aproveitei que ele sempre está aqui nas comemorações dos nossos aniversários para saber como foi o processo criativo do hino e da letra e como ele viu e viveu aquela época. Délcio é um gaudério de Tenente Portela, no Alto Uruguai, que como tantos outros virou hamburguense de coração.

O olhar do poeta capta a essência de uma cidade que se desenvolveu com o espírito dos imigrantes aventureiros

O que o trouxe para cá? As abundantes alternativas de trabalho que, por muitos e muitos anos, caracterizaram nossa Novo Hamburgo e quiçá estejam voltando. “Novo Hamburgo representa muito na minha vida. Me causou uma dificuldade imensa para conseguir emprego na área de Recursos Humanos, na qual havia me formado e especializado. Precisei aceitar a função de auxiliar, uma situação bem complicada quando tu ja estás acostumado a gerenciar. Isso me fez optar em definitivo pela música.”

“Até então, eu nunca tinha olhado para a música como profissão. Foi lá por 79 que eu fiz essa opção”, relembra com ar saudoso. E conta que naquele período, o secretário de serviços urbanos era Luís Albuquerque, um homem que amava flores e plantas. “Tínhamos um roseiral na Praça 20 que era uma coisa espetacular, as nossas praças, em via de regra, eram todas floridas.”

“O Parque Floresta Imperial era um jardim, uma coisa espetacular. Aos domingos, a gente ia ao parque fazer churrasco com a família, com os amigos, aproveitar aquele ambiente natural, acolhedor e de uma beleza encantadora.”

Foi inspiração para a letra do hino, eu pergunto? E aí ressurge a história. “Em 1982, o governador dos gaúchos era o Jair Soares, e ele criou o Polo Cultural de Novo Hamburgo. A professora Liene Schutz foi escolhida como gestora e ela criou o festival Canto da Cidade.”

Délcio Tavares mistura ritmos gaúchos e italianos mesclando a tradição sulista com o romantismo europeu

O movimento coralístico era muito forte aqui e Délcio era regente do Coral Luizinho. Foram convidados para inscrever uma música no festival. “Nos enviaram um histórico, contando como foi a ocupação do Vale dos Sinos pelos alemães. Um dia, voltando de Porto Alegre, na descida do Liberato, avistei os únicos prédios altos da cidade, que eram dois: a igreja São Luiz e o edifício da Companhia de Seguros Novo Hamburgo.”

Olhando a cidade tão bonita, tão arborizada, lhe veio naturalmente o refrão neste verso: “Nesse vale tão bonito, entre a serra e o mar, onde fica Novo Hamburgo, minha cidade, meu lar”.  O músico lembra que entrou em solo hamburguense e, dirigindo-se a Canudos, passou em frente à Fundação Scheffel, artista cuja obra tem um valor histórico e cultural imensurável para nós. Nas suas referências o prédio era a Casa Velha. Não era, mas ele acrescentou à letra: “Casa Velha é um recanto onde a arte foi morar”. E isso ficou na música que concorreu no Festival de Canto da cidade.

“Quando foi para oficializar a inscrição no projeto, julgou-se melhor não destacar um estabelecimento ou entidade, mas ressaltar a globalização cultural de Novo Hamburgo. Na hora eu matei a charada e ficou assim: Novo Hamburgo é um recanto onde a arte foi morar e a Fenac do calçado é o orgulho do lugar”.

Em 2006 e 2012, o cantor foi homenageado pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul com o Prêmio Victor Mateus Teixeira (Teixeirinha), na categoria Ítalo-gaúcho

O movimento cultural daqui chamava a atenção de todo o estado. Naqueles gloriosos tempos, Lourival Pereira liderava a trupe teatral com uma turma maravilhosa e com muitos valores. “Eu acho que acabei englobando tudo em quatro frases no refrão. Mas precisava contar a história. Voltei às informações da professora Liene e saiu assim: – Foram poucos imigrantes, vindos lá do fim do mar, desbravaram essas terras, trabalhando sem cessar. Quis valorizar o trabalho desses pioneiros que vieram aqui, desbravaram estas terras. Tudo que vivenciamos hoje é resultado do trabalho que foi iniciado por essa gente.” Nasceu assim o hino de Novo Hamburgo!

Como tu vês a nossa cidade aos 92 anos, Délcio? “Infelizmente a vida pública sofreu transformações profundas. Hoje um gestor público encontra barreiras legais para fazer o que precisa ser feito, má vontade política, parece que as pessoas não querem ver as coisas acontecendo. Isso é lamentável. Mas nós temos uma administração com visão, nossas praças estão voltando a florir e sorrir. Com vontade de fazer acontecer vamos superar o que atrapalha e isso vai nos motivar e inspirar. Para sair alguma coisa que faça sentido e que toque o coração das pessoas, mudar é essencial. ”

Délcio Tavares também compôs o Hino do Esporte Clube Novo Hamburgo, no ano em que fomos campeões estaduais. Em 2016, com o campeonato em andamento, ele escreveu: Esporte Clube Novo Hamburgo, és o time do meu coração, anilado do Vale dos Sinos, teu destino é ser campeão”. E assim foi”

Fotos: Divulgação

PONTO DE VISTA: O que está acontecendo?

Poucos talvez ainda estejam percebendo, mas há um movimento em curso na cidade que pode ser o começo do fim de um ciclo no qual estivemos presos nas últimas décadas. Falo do descontentamento generalizado com as nossas coisas. Passamos anos e anos desmerecendo nossa cidade, desvalorizando nossas conquistas e desacreditando o nosso futuro. Mas eis que de repente, alguém estende a mão, o outro para pra ouvir uma ideia, um terceiro decide não mais ficar mal-humorado e de braços cruzados.

O que está acontecendo? As policias atuando juntas, os cidadãos unidos na revitalização de uma escadaria, de uma praça; os comerciantes do centro discutindo civilizadamente o que fazer para que todos saiam vencedores na renovação da área, funcionários públicos da saúde suando o jaleco para capinar o entorno do seu local de trabalho, entidades se reunindo para planejar ações conjuntas… Não é sonho e isso está me cheirando bem.

Para que uma cidade seja bem vista e admirada de fora para dentro e pela sua própria comunidade, é necessário haver engajamento antes de tudo. Mas este só acontece depois que alguém faz a frente, dá o primeiro passo, chama para si a responsabilidade por uma ação. Me parece que é isto que está acontecendo: atores desconhecidos resolveram assumir um papel que não era seu e começaram a mudar o “script”.

Os mais vividos e os que têm maior conhecimento sobre a história da cidade e tudo o que alicerçou o desenvolvimento social, econômico, cultural e ambiental do município deverão concordar comigo. Quando, num passado bem distante, hamburguenses de diferentes estirpes começaram a se alinhar em torno de ideias e ideais, o que aconteceu foi um salto excepcional na qualidade de vida da população e melhora substancial na educação, na segurança, na saúde e em tudo que você imaginar.

Será que estamos repetindo a história?

 

 

A cultura da confiança na base do negócio – Mandão e Mandinho, pai e filho, passado e futuro

O projeto “Empreendendo nos bairros” foi ali no São José visitar o amigo de mais de 4 décadas, Paulo Roberto Feiten, o Mandão! Ele trabalhou com carnes a vida toda, fez amigos e clientes nessa jornada e até virou marca registrada. Seu apelido saiu da vila, se fez reconhecido e admirado pelos arredores, e voltou pra casa para esperar os clientes, junto do Mandinho. É assim que vamos desenvolvendo a história e nos desenvolvendo nesta cidade.

Pai e filho se aliaram no negócio e seguiram o espírito empreendedor da família

Em tempos nem tão distantes imperavam aqui valores que, atualmente, caíram em bastante desuso, mas não deixaram de ser referência para muitos que vivem e trabalham aqui. O traço aparece bem marcado na história desta família.

A veia empreendedora tem origem no pai do Mandão, que com 2 irmãos e um cunhado, na década de 60, fundou um matadouro. Não havia água nas redondezas e na empresa tinha um poço que reunia uma gurizada em volta. “Era um dos primeiros poços com uma bombinha da região. Eu não queria deixar os guris pegar água, aí botaram o apelido de Mandão.”

Do matadouro os sócios evoluíram para o açougue, que depois fez a fama do Mandão e transformou o apelido numa referência na cidade e na região. “A propaganda boca a boca ajuda muito, mas dá um trabalhão. Fazer e manter o nível de qualidade é o que se propaga, na verdade. Mas o Mandão ajudou.”

Em seis meses o Mandinho Burguer virou “point bacana” para clientes de toda a região

“Paulinho, quando completou 1 ano de Gastronomia na Feevale, quis fazer cachorro quente com uma bike food. Compramos a bicicleta, estávamos com 60% do projeto pronto. Aí ele pegou uma sobra da costela recheada que fazíamos – tinha churrasco todos os dias no açougue – e preparou hambúrgueres. Adoramos. Depois, fez na festinha de uma colega. A gurizada também gostou e deu o brilho.”

No primeiro evento que o Mandinho foi fazer fora, um temporal feio se armou. “Um pé de vento arrancou toda a estrutura do local, e ele tinha comprado as coisas… E agora, pai?” Mandão sugeriu fazer no açougue e a família entrou em ação, todos ligando e convidando amigos. A estratégia funcionou. “Pensa num domingo frio, relembra. Mas as pessoas vieram e ele vendeu 121 hambúrgueres.”

Apto 3 dormitórios
Jorge Trenz
  “Na terça-feira já avisei o pessoal do churrasco. Semana que vem é hambúrguer. Quem vier, já sabe. O pessoal comeu e gostou. Na semana seguinte ele fez 25, depois 28 e foi crescendo. Quando fizemos 100 numa terça-feira foi uma loucura.” Com a aceitação crescendo, abriram na sexta. Vendeu mais que na terça. Logo, terça e sexta não supriam mais, então, passaram a abrir também nas quartas-feiras.

Mandão faz questão de salientar: “O negócio é todo dele, os méritos são todos dele. O que ele precisou no começo foi um pouco do nome. Mas hoje já tem os próprios clientes, que vêm de toda a região, de Porto Alegre a Gramado.” Ao pai cabe a compra e seleção dos produtos e o caixa.

Mais de 500 hambúrgueres são produzidos e a cozinha é aberta ao público

Desde o tempo do churrasco, no Mandão valia a palavra. Havia um caderno onde o cliente anotava o que havia pego. Hoje, marca-se apenas as comandas do hambúrguer, para controle. Cerveja, refrigerante, sorvete, chocolate, o cliente indica o que consumiu quando vai pagar. Nada é anotado.

Perguntei se o São José é um bom bairro para empreender. ”Acredito que sim. Eu só lamento que alguns proprietários de imóveis não investem em cima, deixam tudo atirado. Isso joga contra o bairro. Espaço para empreender, tem. O que está precisando é dar uma repaginada. Pra gente seria muito bom que tivessem outros negócios na volta. O bairro é bom, nunca tive problemas com segurança.

No açougue, Mandão mudou sua maneira de trabalhar com carne. Está focado em cima de carne para churrasco. “Não tenho mais a carne do dia-a-dia. Tanto é que não tenho mais balcão, meu produto está todo na câmara fria, não tenho expositor. Meu espaço é diferente!

Fotos: Divulgação