Uma escola só para garotas.

Entrevistei a professora Traude Schneider recentemente para a minha coluna na revista Expansão, que circula neste mês. O assunto foi o professor Sarlet e a contribuição enorme que ele nos deixou. Vale a pena ler. Mas para falar dele, a profª. Traude acabou me dando uma aula de história magnífica sobre a Fundação Evangélica e, consequentemente, sobre nosso passado nem tão longínquo assim.

Turma que concluiu em 1957 o curso ginasial na Fundação Evangélica, em Hamburgo Velho.

Em 1886, as irmãs Lina e Amálie Engel adquiriram um prédio pertencente a Jacob Kroeft para instalar uma escola para moças. A profª. Traude acredita que deviam ser umas 25/30 moças estudando ali naquele prédio que deu origem à Fundação Evangélica que depois passou a ser o Lar das Meninas.  “Naquele tempo, as meninas saiam da escola e iam para o culto na igreja do relógio de Hamburgo Velho”, conta.

Em 1952, o Ginásio era o forte da Fundação e tinha um curso chamado Economia Doméstica. Esse curso era ministrado para moças que chegavam de todo o Brasil. Vinham para se aculturar e, pasmem, aprender a ser donas de casas. Elas aprendiam a engomar roupa, a cozinhar com primor para, quem sabe, tornarem-se esposas de políticos ou empresários.

A Evangelisches Stift. Uma escola feminina evangélica alemã no cenário educacional brasileiro.

As meninas eram preparadas para atuar no lar e no ambiente social, me disse a professora Traude. Hoje isto é impensável, mas naquela época não era nenhum absurdo, não. Do contrário, era o máximo, porque as futuras senhoras estudavam história, inglês, alemão, francês, além de economia doméstica.

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  “Outra característica da Fundação ero o meio-ambiente”, relembra a profª. Traude. E por que isso? Os professores eram todos alemães, que vieram fugidos da guerra ou depois dela. Tinham como filosofia um ser humano inteiro, que cuida da natureza, que cuida da arte, que cuida de si. E ensinavam isso.

“Tem um morrinho nos fundos da Fundação com todas as árvores catalogadas com o nome cientifico”, diz a profª. Traude. “Uma vez nós fomos ao Morro de Dois Irmãos a pé, olhando a natureza, mas não podia pegar nada. Os professores tinham quase uma reverência pela natureza.”

A Casa das Artes foi o local escolhido para essa viagem cultural.

O estimulo às artes era outra característica forte dos mestres alemães. “Nós tínhamos um professor de música que tocava piano e cantava. Ele fez um caderno com todo o folclore brasileiro, de norte a sul. Cantávamos tudo em vozes.

Outra prática era ouvir música num toca discos, em profundo silêncio. E o que ele queria ensinar? Sermos espectadores, que hoje é uma coisa tão difícil para as pessoas.”

Uma curiosidade para encerrar essa aula da professora Traude: a família austríaca Von Trapp (The Sound of Music (bra: A Noviça Rebelde; prt: Música no Coração), se apresentou na Fundação Evangélica. Eles fugiram pela perseguição da guerra e se apresentavam cantando pelo mundo.  Estiveram entre nós, como o saudoso professor Sarlet, que nos proporcionou, pós-morte, esta conversa e a oportunidade de aprendermos mais um pouco sobre nós mesmos.

Colaboração: Cinara de Araújo Vila – Procuradora do Município de Novo Hamburgo

Fotos: Divulgação

 

 

Uma janela para o futuro. O nosso futuro!

Uma palavra muito empregada entre gestores modernos de negócios e no marketing atual é “propósito”. Pois há 50 anos, o conceito já circulava entre nós e foi definitivo para a criação de uma das nossas mais brilhantes criações: a Feevale. Criada pela comunidade de Novo Hamburgo, nas atas das primeiras reuniões já estava escrito: “Queremos ter uma instituição que forneça condições para que nosso filhos e as pessoas daqui se desenvolvam e desenvolvam a cidade, as empresas”.

Para o reitor, a indústria criativa vai unir a arte tradicional com as novas tecnologias.

Cléber Prodanov, reitor da universidade, me revelou isso em entrevista para a revista Expansão e afirmou que a Feevale está cumprindo o que foi pensado para ela. E foi categórico quando disse que não dá pra falar de Novo Hamburgo nos últimos 50 anos sem falar da Feevale ou vice-versa. Sua história está absolutamente atrelada à cultura que nos formulou e isso é inquestionável.

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Jorge Trenz
 Nós tivemos uma trajetória muito importante no calçado, o que criou as bases econômicas para outras coisas. E aí a Feevale se insere, qualificando o nosso desenvolvimento. Começou como uma faculdade isolada, transformou-se em centro universitário, agregou a pesquisa, o parque tecnológico, até virar universidade. Transformou Novo Hamburgo num polo universitário e ajudou a oficializar a cidade como centro regional.

“Estamos sendo um elemento integrador importante mesmo à distância e ajudando a forjar a cidade que queremos ser no futuro”, disse o reitor. Por isso a expansão. Hoje a nossa Feevale tem 10 polos aqui no Vale e mais um na China. Este braço chinês é para atender nossa gente que foi morar e trabalhar lá, quando perderam o emprego na área do calçado aqui. Ir ao encontro deles significa muito e a troca de conhecimentos que isso pode gerar é do nosso interesse, claro.

Espaço de atração e encontro de pessoas que querem experimentar e desenvolver a sua criatividade.

A fundação da Feevale, muitos vão lembrar, deu-se com o curso de Belas Artes. Agora, veja que interessante: esta tradição que temos na produção artística e cultural, movimento teatral, escultura, pintura, canto coral continua refletindo e influenciando a história da universidade. Nas palavras de Prodanov: “O mundo se transformou e a criação de um ambiente de cultura talvez não passe mais necessariamente pelas artes tradicionais, mas por aquilo que a gente chama de indústria criativa. A indústria criativa vai unir a arte tradicional com as novas tecnologias.”

Em dezembro do ano passado foi criado o Hub de Inovação e Criatividade. É um ambiente para gerar negócios voltado para a indústria criativa. Prodanov diz que “As carreiras do futuro não foram inventadas. As profissões do futuro não foram inventadas. Temos que atuar com visões mais transversais. E a Feevale tem que estar na frente disso, formando pessoas que tenham condições de ter uma atividade cada vez mais plural, e não atrás, atendendo a uma necessidade do mercado.”

Hub One, uma estrutura voltada às empresas e aos negócios vinculados à indústria criativa.

Perguntei ao reitor “O que a Feevale construiu e quer deixar para a eternidade?” A resposta dele não poderia ser mais motivadora. “A eternidade não é matéria é espirito. E o que podemos deixar para a eternidade é esse espírito que temos de inovar, renovar, transformar e de estar sempre a serviço da comunidade. Não virar uma coisa meramente comercial. É preciso sobreviver, mas não podemos virar as costas para a comunidade que nos criou. É muito fácil a gente esquecer e achar que é autossuficiente. Então se a gente fala em eternidade, é espirito, e o espirito é, então, comunitário.

Colaboração: Cinara de Araújo Vila – Procuradora do Município de Novo Hamburgo

Fotos:  Nadine Funck  e Ana Knevitz – Universidade Feevale/Divulgação

 

Eles têm um palácio na cidade e a loja de música mais antiga do país.

“Naqueles tempos estacionavam os bondes ao lado das bancas. Onde agora é a pracinha tinha um chafariz e nele, lavavam as garrafas da fábrica de bebidas de meu pai, as gasosas”, conta Ariane Brusius. Ela é filha de Albano Brusius e irmã de Alexandre, o parceiro com quem toca o negócio da família.

A loja conta com espaços amplos e setorizados.

O pai, Albano, conhecido antigamente por todos como Professor Vanzetti, era homem de negócios nato. Natural de Taquara, sempre esteve envolvido com a comercialização de alguma coisa. Vendia carvão e teve a fábrica de bebidas antes de adquirir no bairro Rio Branco, a loja de instrumentos musicais que é a mais antiga do Brasil! O Palácio da Música.

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 O Palácio pertenceu, inicialmente, ao Arno Bohn, da fábrica de Órgãos Eletrônicos e ao Breno Blum. Depois de um período o negócio foi encerrado e os instrumentos que não tinham sido vendidos foram guardados em um depósito “O Palácio da Música existe por causa de uma troca que meu pai fez com o seu Arno”, diz Ariane.

Certo dia o professor, que era proprietário de um carro Modelo A, deu carona para o seu Arno, coisa comum na Novo Hamburgo daqueles tempos em que o automóvel não era tão comum assim. Conversa vai, conversa vem, aos trancos e solavancos estrada afora, resolveram negociar. O Modelo A e os instrumentos do depósito trocaram de mãos.

Assim, começou uma linda história de empreendedorismo. 30 anos se passaram e a família Brusius, liderando o Palácio da Música, atraiu clientes de Novo Hamburgo, da região e de Porto Alegre. Foram três décadas com a loja funcionando em frente à antiga rodoviária. O local era de fácil acesso para os músicos e interessados e ganhou fama pelo repertório de instrumentos e acessórios que oferecia.

A equipe de profissionais faz do atendimento um dos grandes diferenciais.

Depois, mudou-se para a esquina do Shopping. “Nós fomos para lá antes de começarem a construí-lo. Ficamos 21 anos naquele endereço e agora estamos há 6 anos aqui na Cinco de Abril”, diz Ariane. Ela e o Alexandre ficaram sabendo que são os mais longevos do ramo no Brasil a pouquíssimo tempo, apesar dos 57 anos em cena. ”

“Nós não sabíamos, ganhamos esse prêmio em São Paulo no ano passado. A Tagima (empresa de instrumentos musicais) nos convidou para o encontro anual promovido por eles com parceiros e uns 500 lojistas do Brasil. No evento, eles fizeram uma surpresa e anunciaram o Palácio da Música como a loja mais antiga em funcionamento no Brasil.”

O cenário mudou. Atualmente, muitas pessoas usam a música para se completar. Nas suas 24 horas do dia a dia, querem ter algo que lhes acalme, como uma dança, aprender uma língua nova, fazer uma viagem… E muitos querem tocar um instrumento, não necessariamente ser um profissional. “As pessoas encontram aqui uma loja com tradição, pessoal especializado para ajudar e orientar”, orgulha-se.

Músicos de várias regiões do estado prestigiaram o aniversário de 57 anos.

A família Brusius mudou o endereço do Palácio algumas vezes, mas nunca trocou de bairro. Ariane e Alexandre concordam que o bairro Rio Branco é bom para trabalhar. Nas palavras dela: “as coisas funcionam, é tudo muito próximo e tu consegue resolver tudo por aqui. Tem problemas de estacionamento, por isso eu gosto dessa coisa do ticket, quando a pessoa pode ficar 15/20 minutos. Senão o sujeito passa o dia inteiro com o carro estacionado e quem tem comércio, que precisa do giro fica prejudicado.

Fotos: Divulgação

 

 

 

Quem canta seus males espanta.

A música tem um poder sobrenatural sobre nós, humanos. E sobre os animais e até sobre as plantas, também. É uma linguagem de comunicação universal, com poderes para sensibilizar, aproximar, fazer amar. A música existe e sempre existiu como produção cultural. Desde que o ser humano começou a se organizar em tribos primitivas pela África, ela era parte integrante do cotidiano dessas pessoas.

Movimento Coral Feevale ensaia, semanalmente, desde março para a apresentação do próximo dia 29.

A música possui a capacidade estética de traduzir os sentimentos, atitudes e valores culturais de um povo ou nação. É uma linguagem local e global. Na pré-história o ser humano já produzia uma forma de música que lhe era essencial, pois era na arte que encontrava campo fértil para projetar seus desejos, medos e outras sensações que fugiam a razão.

Casa em Ivoti
Jorge Trenz
No fundo, todos nós somos amantes da música. Novo Hamburgo, com sua tradição coralística, é terreno fértil e eis aí, mais uma característica espetacular que eleva e ajuda a valorizar a cultura da nossa cidade. Recentemente, na minha coluna da revista Expansão, dei voz a Luiz Gerhardt, que tinha 8 anos quando ingressou no Coral Nossa Senhora da Piedade e nunca mais saiu. Logo após, um concerto lindo no Aliança reuniu a Orquestra de Sopros de Novo Hamburgo, o Coral Júlio Kunst e o Coral Meninos Cantores.

Logo mais, em agosto, o Colégio Sinodal da Paz será palco do 38 Encore – Encontro Nacional de Conjuntos Instrumentais da Rede Sinodal de Educação. Se quem canta seus males espanta, não há mal que perdurará sobre nós e nossa Novo Hamburgo. Para junho, já temos agendado um outro concerto especialíssimo, este para comemorar os 50 anos da Aspeur/Feevale. O programa que será apresentado celebra a trajetória de realizações e conquistas da instituição de ensino.

O Instrumental Feevale, com arranjos e ritmos ecléticos, vai embelezar ainda mais o espetáculo.

O repertório selecionado, com músicas nacionais e internacionais, é alusivo a uma caminhada de muito trabalho, desafios, união e fraternidade. As canções serão interpretadas por grupos de cantores e instrumentistas do Projeto Movimento Coral Feevale, representando a força do trabalho comunitário. Os ingressos são gratuitos e podem ser retirados na bilheteria do Teatro Feevale a partir do dia 24 de junho.

Mais informações em www.feevale.br/concerto50anos. Agende-se para 29 de junho, 20h, no Teatro Feevale. Só não esqueça de retirar logo o seu convite, porque o teatro vai lotar e gostaria de ver meus amigos e amigas lá.

Fotos: Divulgação

 

 

 

 

Das 7 da manhã até 23h na piscina. Vida de playboy?

A terceira escola de natação do Brasil nasceu em Novo Hamburgo. O nadador, Educador Físico e professor Elio Becker lançou-se ao desafio em 1976 e criou o Centro de Natação e Reabilitação Golfinho, aqui no bairro Rio Branco. Formado pela UFRGS, ele estudou na Universidade de Colônia, na Alemanha, é pesquisador e um ícone do esporte na cidade e entre os aliancistas mais vividos, principalmente.

Professor Elio Becker, nadador que tornou-se Educador Físico e especialista em reabilitação.

Você foi treinador de uma equipe de natação que orgulhou nossa cidade.

Tivemos bons nadadores na Sociedade Aliança e desenvolvemos um trabalho sério e com bases científicas. Obtivemos resultados e projeção, e eu trabalhava muito duro naqueles tempos. Duro mesmo. Lá pelos idos de 69, começava às 5 horas da manhã e ia até às 23 horas. Treinava a equipe do Aliança, dava aulas particulares, trabalhava em colégios. Colocamos a natação hamburguense num patamar bem alto.

Apto 3 dormitórios
Jorge Trenz
 E a terceira escola de natação do país foi pensada no meio deste processo? 

Se eu tivesse condições financeiras na época, possivelmente eu teria sido a primeira escola de natação do Brasil. Mas a primeira surgiu em São Paulo, a segunda em Porto Alegre e então veio a Golfinho. Já tinha pedido uma força para o meu pai, mas ele não acreditava no esporte e menos ainda no projeto. Queria que eu fizesse administração e fosse trabalhar na empresa em que ele era diretor, imagina. Tive que ir à luta.

Qual era o seu objetivo, visto que naquele momento era um segmento novo? 

Eu queria padronizar um trabalho, projetar atletas, chegar a resultados melhores. Depender de diretores, presidentes, complicava muito. Cada vez que mudava uma diretoria, mudava totalmente o interesse, a ideia. Aquilo não servia à minha expectativa de professor, nem de técnico de natação. Já tinha ideia, também, de ser dono do meu nariz.

Seu nome sempre foi uma referência das piscinas. Como construiu sua carreira?

Sempre procurei e procuro ser o melhor naquilo que faço. Não quer dizer que eu seja mais do que alguém, apenas é minha expectativa em relação a mim mesmo. Isto me fez estudar, estudar e estudar. Fui pesquisador em fisiologia e biomecânica e, quando fundaram o laboratório de pesquisa da UFRGS, o Lapex (Laboratório de Pesquisa do Exercício), o Dr. Eduardo de Rose, que depois foi Presidente da International Federation of Sports Medicine, com mais de 120 países integrantes, e membro das comissões médicas do COI e do COB me convidou para trabalhar com ele. Nunca parei de estudar.

Metodologia orgânica e funcional são alguns diferenciais da Golfinho.

É por isto que, nos últimos anos, tem se voltado mais para o trabalho de reabilitação?

Também. Estudar o corpo humano é excitante, uma atividade muito rica e complexa. Eu adoro e tenho feito um trabalho extraordinário com joelhos, coluna, ombros, todo tipo de lesão muscular e, também, no pós-operatório. Sempre dentro da água, claro. As atividades da escola continuam com alta qualidade técnica e humana, mas eu, realmente, tenho me dedicado mais à reabilitação.

Por que escolheu o bairro Rio Branco para colocar seu negócio? 

Eu idealizei a escola aqui no bairro desde o início, porque era um lugar bom, onde, na época, não havia problemas de estacionamento, ficava perto do centro e o acesso das pessoas de outros bairros também já era fácil. Agora é ainda mais fácil. Comprei a casa que estava sobre este terreno com o resultado de 3 anos de trabalho desenvolvido em Carazinho, mais um empréstimo bancário. Construí a primeira piscina e ela logo me deu um baita susto.

Que susto foi esse? 

Descobri que eu precisaria de 160 alunos para pagar tudo o que eu tinha que pagar. Se não tivesse 160 alunos eu estaria morto. Quando eu abri a escola em outubro de 1976, tinha exatamente 150 alunos esperando vaga. Abri a escola com 300 alunos, que era a minha capacidade. Eu entrava às 7 horas da manhã na piscina e saía as 9:30 horas da noite, direto. Tinha uma hora para comer alguma coisa ao meio dia e voltar para a piscina.

A natação é a prática mais bem recomendado do mundo em benefícios.

Que características o Elio Becker destacaria no bairro?

Quando eu era gurizão, esse bairro já tinha um comércio diversificado, com indústrias de calçados, curtume, Casa Cavasotto, enfim, marcas muito fortes da indústria e do comércio. Atualmente, é um lugar absolutamente integrado ao sistema de Novo Hamburgo, além de te dar muita independência. É um local de progresso.

 

 

 

 

 

 

 

 

Canto Coral – Surgido na idade média, virou patrimônio imaterial de Novo Hamburgo

A música praticada nos templos da Idade Média era o que conhecemos  popularmente por canto gregoriano. Músicos das grandes catedrais costumavam sobrepor melodias independentes sobre um determinado trecho, obtendo estruturas musicais mais volumosas e impactantes do que as simples melodias cantadas em uníssono. Esta forma musical reunia muitos cantores e era conhecida como organa. Dela que originou-se o canto coral, que teve como um grande centro cultor e divulgador a Catedral de Notre Dame, de Paris.

Coral Nossa Senhora da Piedade: uma atividade voluntária de paroquianos e paroquianas que praticamente não conhecem música.

O canto coral também é uma referência artística da cultura teuto-brasileira. Foram os imigrantes que trouxeram a “Hausmusik” (a música caseira) e o “Lied” (canto) para o Brasil. Os encontros nas igrejas católicas e evangélicas para cantar composições religiosas foram suas primeiras manifestações. Sobre isso, e porque somos parte importante nessa história, fui conversar com a Irmã Veronice Weber e Luiz Gerhardt, que tinha 8 anos quando ingressou no Coral Nossa Senhora da Piedade. E nunca mais saiu.

Em 1954, por iniciativa do Mons. Edmundo Backes, foi organizado o Coral Nossa Senhora da Piedade. O jovem padre, natural de Sinimbú/RS, veio da capital gaúcha para a distante e já antiga Paróquia Nossa Senhora da Piedade. Na bagagem, trazia muitas partituras e livros de canto e liturgia, paixão antiga do néo-sacerdote. Ao chegar nestas terras de Hamburgo Velho, logo convidou paroquianos e iniciou os primeiros movimentos de canto religioso.

Luiz Gerhardt tinha oito anos quando ingressou no coral e nunca mais saiu.

Em janeiro desse ano o coral completou 65 anos e Luiz Gerhardt restou o único remanescente daquele grupo. Homens e mulheres foram se somando nesse período, mas muitos já estão hoje com 40, 50 anos de participação no coral. “Uma das maiores dificuldades que vivenciamos não é somente o acréscimo de pessoas, mas sim um acréscimo de pessoas jovens”, afirma Luiz.

Os corais têm sido uma das maiores forças vivas da nossa comunidade. Participam intensamente nas atividades sociais das igrejas e em eventos. Luiz diz que o nosso movimento coral influenciou o avanço da organização da teoria musical. “Ajudou a desenvolver e refinar o canto até chegar à formas mais ordenadas de estruturação, o que proporcionou o surgimento do moderno canto coral. É preciso preservar isso e evoluir ainda mais”, completa.

Um coral demanda bastante tempo e, por isso, há muita dificuldade para renovar os quadros. A atividade é de grupo e eminentemente técnica. Hoje, exige ensaio contínuo e ininterrupto. “Mas pela tradição e porque ainda existem profissionais totalmente comprometidos com esta arte, o município continua sendo um polo forte”, diz Irmã Veronice.

Irmã Veronice, regente há 10 anos.

“No caso específico do Coral da Piedade, a perseverança de seu fundador, regentes, organistas e componentes manteve a instituição ativa e atuante até os dias de hoje” complementa Luiz. O Coral da Piedade ganhou notoriedade, também, pela difusão das suas apresentações.

“Em 1997 começamos a ensaiar encenações. O criador era o irmão José Bernardes. Nessas apresentações falávamos muito do Antigo Testamento, do Paraíso, de Adão e Eva. Praticamente metade do coral virava intérprete e a outra metade dava força no canto. Nós viajávamos a cada 3 meses, isso é um fato histórico, talvez o mais forte do coral da Piedade.”

Projeto Meio Ambiente Cultural

Colaboração: Cinara de Araújo Vila – Procuradora do Município de Novo Hamburgo

Fotos: Sérgio Jost

 

 

 

PONTO DE VISTA: Quem quer dinheiro para comprar ou investir em imóvel?

Tomei emprestado parte do bordão do Sílvio Santos para chamar atenção sobre a novidade que me trouxe Jairo Manfro, Superintende de Negócios de Habitação do Vale dos Sinos da Caixa Econômica Federal: a Caixa está voltando a atuar com bastante força nos financiamentos de casa própria de médio e alto padrão.

A superintendência de Manfro atende 63 municípios da região e Novo Hamburgo se destaca neste cenário.

Mas o que é considerado imóvel de médio e alto padrão para a Caixa? São valores acima do teto do Programa MCMV ou FGTS. Para Novo Hamburgo, o enquadramento é para imóveis acima de R$ 190.000,00. O orçamento a ser liberado soma R$ 20 bilhões, podendo ser ampliado. Manfro diz que a Caixa trabalha com expectativa de melhoria no cenário econômico.

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Jorge Trenz
 Os financiamentos destinam-se para a compra de terreno e construção, compra de apartamento na planta, compra de imóvel novo ou usado e compra de um segundo imóvel. O objetivo é acelerar a liberação dos estoques mantidos pelas construtoras, permitindo a retomada de novos empreendimentos. Essa linha de crédito já está à disposição em toda a rede caixa e correspondentes bancários.

Segundo o superintende, Novo Hamburgo é uma cidade diferenciada na região. Tem um nível de renda melhor, grande capacidade de investimento e imóveis de alto padrão. Manfro destacou que o banco tem recursos também para a pessoa jurídica. “As incorporadoras que desejam lançar um empreendimento pela Caixa podem nos procurar. A Caixa tem crédito e condições de financiar o empreendimento também”, afirma.

Em fevereiro de 2017, na matéria “A Construção de um novo cenário no ambiente imobiliário” eu dizia que nada ficaria igual após o vendaval que varreu a economia verde-amarela. O segmento imobiliário passou por um período tenebroso, mas as coisas, aos poucos, estão começando a mudar. Então, atenção. Pode ser a sua hora.

 

PONTO DE VISTA: Para que lado agora? Que tal em frente!

“Novo Hamburgo já era”, com Luís Coelho, foi um dos títulos mais controversos publicados aqui até hoje. Foi uma cutucada proposital e providencial para tentar entender um pouco mais sobre nós que crescemos, vivemos ou moramos nesta cidade o suficiente para ter acompanhado o forte processo de desenvolvimento patrocinado pelo calçado em várias áreas fundamentais. E, também, a retração e as mudanças contundentes ocasionadas pela realidade imposta quando perdemos importantes mercados internacionais.

A moeda rodopiou e dois lados mostrou: os dois, saudosistas. Sentimos falta, todos, daqueles bons tempos de empregos fartos, fábricas grandes, boas escolas, segurança e crescimento. Quem não sentiria? Sociedades que não tiveram ainda essa oportunidade, acredite, trabalham muito pra ter. Nós já tivemos e agora vivemos com a sensação do não ter.

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Jorge Trenz
Na entrevista, Luís Coelho traz uma reflexão curiosa. Aquilo que fomos, se não era, tornou-se um projeto coletivo. Crescemos em torno de uma ideia: o sapato. Fizemos o Senai, escolas preparatórias, sequenciamos uma fábrica, um projeto de negócios. Isto viralizou e mostrou a oportunidade que a necessidade do outro abria. Criou-se, assim, nossa autossustentável cadeia coureiro-calçadista. “Que evoluiu e não morreu”, como afirma Coelho http://blog.trenznegociosimobiliarios.com.br/2019/05/16/novo-hamburgo-ja-era-e-agora-como-será/

Pode haver controvérsias, mas é um excelente ponto de vista. Além de calçar as pessoas que vivem no planeta, temos oportunidades para voltar a ser protagonistas em áreas relevantes do futuro. E qual a importância de ter uma universidade envolvida nisso? Quem nos esclarece é o reitor da Feevale, Cléber Prodanov, na entrevista que fiz para a revista Expansão de junho.

Novo Hamburgo já era. E agora, como será?

Luís Coelho é um profissional que sabe muito sobre nosso passado, nosso presente e nosso futuro. Ele atua há mais 20 anos no setor de calçados, bolsas e manufaturados no Brasil, Colômbia, Equador, Peru, Uruguai, Chile e Portugal. É o presidente da Coelho Assessoria Empresarial e afirma com convicção que, apesar dos percalços, seguimos ligados ao calçado.

Segundo Coelho, dizer que o setor acabou é, no mínimo, falta de conhecimento.

Nossa história com o calçado começou no século XIX, com os primeiros imigrantes alemães que vieram para cá e, a partir da fabricação de peças de selaria, com o couro que eles mesmos curtiam, criaram, uma outra indústria. Começaram a surgir as primeiras empresas calçadistas e isto provocou o surgimento de uma cadeia produtiva para apoiar essa indústria: surgiram os produtores de solados e dos vários componentes que vão no calçado.

A cidade cresceu firme e forte alicerçada por este segmento. Nos tornamos referência em diversas áreas por conta da produção de calçados. Só que o mundo mudou e a China chegou. “Desacreditamos do calçado quando, há 30 anos, a China começou a produzir numa escala absurda. Recaiu sobre Novo Hamburgo a sensação de que o calçado havia acabado aqui e a cidade com ele.”

Uma casa moderna
Jorge Trenz
  É do jogo. Na década de 90 os governos da Bahia e do Ceará identificaram o que os chineses viram antes e nós antes deles: o setor absorve muita mão de obra e isso ajuda a desenvolver cidades interioranas em qualquer lugar do mundo. Então, fizeram ofertas maravilhosas de incentivos fiscais e as empresas, até para subsistirem e aguentarem a concorrência com a China, abriram plantas nesses estados. “Tem empresas lá com 75%, 90% de isenção do ICMS, as vezes até 100% de isenção do Imposto de Renda”, diz.

Construções com design arrojado e matérias-primas diferenciadas são atrativos para o mercado externo.

Na visão do consultor, precisamos mudar a percepção. Pelo tempo e convivência que tem com o segmento, é claro que o Luis sabe do que está falando. E para ele nós não quebramos, nós evoluímos. “Se olharmos para as grandes cidades veremos que a indústria não está mais ali, a não ser que se tenham distritos industriais. Estamos nesta fase de nossa caminhada.”

Na verdade, mesmo tendo perdido muitas plantas industriais para o norte e nordeste, nenhuma empresa importante fechou as portas aqui. Toda a área administrativa, marketing, compras, comercial, desenvolvimento de produto ficou no Sul. Se juntarmos as 10 maiores empresas de calçados do Brasil, pelo menos 9 são gaúchas da nossa região. Estamos seguindo nosso destino, como todo centro em  desenvolvimento.

“Nós temos o maior “cluster” de calçados do Ocidente. Temos o gado no campo, a indústria petroquímica, comercializadoras, trading, logística. Tem tudo aqui. Então, acabou o quê? Nós temos a massa crítica, que é fundamental. O IBTeC – Instituto Brasileiro de Tecnologia do Couro, Calçado e Artefatos está aqui.

Todas as entidades de classe estão sediadas em Novo Hamburgo (couro, calçados, máquinas, componentes). Temos a Feevale que está resgatando, através do Centro de Design e dos seus cursos de engenharia de produção, uma participação importante, ainda que tímida nesta cadeia. A maior feira do Ocidente de componentes e máquinas está aqui. Dizer que o setor acabou é, no mínimo, falta de conhecimento.

Setor calçadista: uma cadeia industrial criativa e em constante desenvolvimento.

Pergunto se dentro da nova realidade mundial, a indústria calçadista é ultrapassada. Luis acredita que é o contrário. “Empregam-se tecnologias sofisticadíssimas em todos os processos e o setor paga muito bem ainda. Tem modelistas recém-formados ganhando R$ 5 mil, aqueles com mais tempo na função já ultrapassando R$ 10 mil. Estilistas com conhecimento e experiência ficam na faixa dos R$ 40 mil.”

Que profissão remunera dessa forma em poucos anos? E tem a área de produção, o comercial… A indústria de calçados é uma grande alternativa para quem quer se desenvolver, ganhar bem, viajar, conhecer outros países. O setor é muito poderoso e, talvez, devemos mesmo botar mais fé naquilo que aprendemos a fazer tão bem.

“O mundo vai continuar crescendo, a população vai continuar usando sapatos. A produção mundial está em torno de 23 bilhões de pares. O Brasil está próximo a 1 bilhão. Claro que aí tem muito de sandálias de dedo mas, mesmo assim, nós somos um grande produtor, o Vale do Sinos continua sendo um dos principais produtores no Brasil. Para o calçado acabar por aqui precisaremos fazer muita coisa errada. Mas estamos no caminho certo” conclui.

 

 

Pedras no sapato fizeram empresário mudar o rumo e virar sucesso

Ele transformou a desesperança em vistosas peças decorativas. Ítalo Holzbach nos mostra como a arte de ser transcende em muito a efêmera sensação de poder. Exportador de calçados para redes internacionais como Walmart e Payless em áureos tempos, perdeu clientes e mercados para a competitividade de alta voltagem dos chineses. Acabou, assim, criando a Rosa Tropicana, no bairro Vila Rosa.

Ítalo conseguiu associar prazer ao trabalho e isso faz com que tenha energia para continuar produzindo

“Quando deu o baque no sapato eu vendia bastante para os Estados Unidos. Viajei para lá, tentando defender minhas posições. Numa noite fui jantar com o pessoal do Walmart. Ao meu lado, sentou-se um americano e a gente começou a conversar. Perguntei a ele o que fazia: – Estou fazendo pedras, ele disse.

Como assim, fazendo pedras? Eram pedras decorativas, fakes, explica Ítalo. 0 americano propôs que trouxesse a novidade para o Brasil. “Olha, estou envolvido no sapato, não tem nada a ver pedra com sapato.” Trocaram cartões e Ítalo voltou para Novo Hamburgo. Passados uns cinco anos, o dragão tomou conta de 100% dos negócios do empresário. Aí não teve mais jeito.

“Não tinha clientes na Europa e minha carteira era de varejistas que vendiam artigos de preço baixo.” A história de Holzbach era com o sapato, como quase toda Novo Hamburgo. Lembrou-se, então, do sujeito que lhe propusera produzir pedras no Brasil! Ligou para ele e conseguiu, aqui, um sócio para iniciar uma nova história. Adquiriram a matrizaria e a tecnologia necessária do americano e começaram a produzir.

No primeiro mês venderam 600 metros de pedra, logo saltaram para 800 e chegaram a 1.000 metros. Mas o negócio não se mostrou tão promissor quanto imaginado. “Depois de 3 anos pensei que teria que mudar novamente de mercado. Foi quando o mundo me fez ver um outro nicho na decoração: os vasos.”

Ítalo nunca fizera vasos, mas também não fizera pedras até se obrigar a fazê-las. “Contratei dois sujeitos para trabalhar, mas combinava com eles às 6h45 e eles chegavam às 8 horas. Aí contratei um pessoal que fazia vasos no Portão. Mesmo problema, era impossível depender 100% da mão de obra.”

Os vasos exercem um papel importante no contexto paisagístico.

A solução foi empregar o processo adotado no início, com as pedras. Chamou um matrizeiro, estudaram como viabilizar as matrizes para que qualquer pessoa pudesse tocar a produção e deu certo. Olhando melhor o mercado, Ítalo percebeu que não tinha ninguém ofertando esse produto no Brasil e se expandiu. Virou um sucesso.

Arquitetos famosos do Rio e de São Paulo descobriram o trabalho do hamburguense e começaram a procurá-lo. “Paulo Lúcio é um cara que faz somente hotéis e atende a rede Maksoud Plaza. Ele disse: impressionante o que tu estás fazendo, porque até agora, se eu precisasse comprar 50 peças, não encontraria iguais. Fiquei tão empolgado que mandei um vaso para ele de presente. Ele colocou ao lado da sua cadeira de descanso.

A Rosa Tropicana entrega em todo o país e atende principalmente sob encomenda, pois tem uma cartela de 700 cores. O cliente escolhe o modelo e a cor que se adequa ao seu projeto ou gosto pessoal. Em 5 dias úteis o produto está pronto. Junto à fábrica há um showroom com pronta-entrega.

Vasos de modelos diferenciados e com cores especiais garantem que o ambiente deixará de ser comum.

A escolha do bairro Vila Rosa para empreender não foi planejada, afirma, mas considera que, geograficamente, o lugar é muito bom. “Quem se desloca para Estância Velha, Ivoti, Dois Irmãos, passa pela região. Numa ocasião resolvi fazer um controle de quantos carros passam aqui na rua. Dá 700 carros por hora. O estacionamento é fácil e consigo fazer do meu ponto uma publicidade permanente. Tenho vendido bem para médicos de Porto Alegre que trabalham no Hospital Geral.”

Perguntei quais características do bairro Vila Rosa ele destacaria. “Para os moradores é muito prático. Tem hospital, 2 supermercados, postos de gasolina, academia pública, é silencioso, próximo do Centro. No momento ele está completo.” Mas na sua opinião, deveria-se evitar mais asfalto e plantar mais, pois tem muitos lugares sem árvores. “O problema maior é quando dá essas enxurradas e o arroio lá embaixo transborda.”