POR QUE A GENTE É ASSIM?

Com 9 anos ela já participava das reuniões com os preservacionistas do bairro Hamburgo Velho junto com a mãe, que é historiadora. Andréa Martins Schütz, arquiteta e urbanista, percebeu desde cedo o valor do patrimônio histórico para uma comunidade. Por isso, tem um olhar muito positivo sobre preservação.

“Vejo o patrimônio histórico de uma forma extremamente afetiva, ele está dentro da minha pessoa. Tive a felicidade de ter nascido numa família que sempre teve consciência de que nós, em Novo Hamburgo, fomos agraciados com um sítio histórico que foi tombado em nível federal por ser um registro de memória fortíssimo da imigração alemã dentro do nosso país.” Preservar esses espaços, afirma, é o que nos dá identidade.

Patrimônio histórico: é necessário que a população seja ouvida.

Conhecer suas raízes, o contexto da sua formulação cultural, é importante para as gerações futuras poderem se conectar com o lugar, sentirem-se parte dele. “Uma população não pode apagar sua história ou de onde ela vem, porque dificilmente poderia seguir seu rumo construtivo. Alguns jardins que ainda mantém características da imigração alemã, lugares que produzem alimentos que vêm do conhecimento culinário daqueles primeiros imigrantes; alguns tipos de fazeres e saberes que lembram os nossos avós, as nossas bisavós, ajudam a manter essa história viva e fazem a gente compreender por que somos quem somos, porque hoje Novo Hamburgo é desse jeito, dessa forma. Pessoas que viveram em tempos passados deixaram seus registros no tecido urbano”, ensina.

Se olharmos par trás, veremos total coerência nesta linha de raciocínio. Afinal, este sistema de construção social foi o que possibilitou nossa ascensão econômica no passado. Não podemos esquecer, sob hipótese alguma, que o sapato foi a força motriz da cidade, que a indústria calçadista levou Novo Hamburgo a ser conhecida no mundo inteiro pela sua fabricação de sapatos, fortemente influenciada pelos imigrantes.

“Então, são esses aspectos que nos fazem ter amor pelo lugar, querer preservar o lugar. Temos casas, edificações, uma estrutura urbana consolidada e isso é muito importante. Mas não é só o patrimônio das edificações que precisa ser valorizado, mas o patrimônio cultural e natural, que inclui a paisagem. Nosso sítio histórico tem muito valor porque ainda abriga um contexto de paisagem preservada.”

Andrea aponta para a multidisciplinaridade como forma de conjugar com equilíbrio o lado da preservação e do progresso. “O grande segredo para ir adiante é dar as mãos e construir resultados positivos”, diz. “Por isso, também, é muito importante a população poder entender esse processo, termos discussões públicas sobre o assunto patrimônio histórico. Minha educação foi no sentido de valorar o patrimônio, não ver essa riqueza como uma coisa velha, decadente, que não vai ter valor para mim. É o contrário”, explica. 

Sou partidário desta linha de raciocínio, porque as próprias questões estruturais exigem esse realinhamento. É impossível manter uma estrutura com cem por cento da sua originalidade. Temos que abrir frentes para adequá-las à questão da acessibilidade, das exigências sanitárias, de segurança, de dados… “O ideal é ter uma arquitetura moderna conversando com a antiga, sabendo que elas foram feitas em momentos diferentes, porém, se adequando ao progresso que a humanidade vai tendo ao longo do tempo”, conclui.

Comento que os jovens hamburguense têm feito muito lazer no bairro histórico de Hamburgo Velho. “Isso é ótimo, porque eles também trazem uma visão diferente de mundo, ligada à sustentabilidade, à questão de poluir menos, de poder usar uma ciclovia, um sonho, aliás, que acalento há muito tempo naquele local. Eu acho que Novo Hamburgo tem um potencial significativo de levar adiante sua história e está mais que na hora de nós, como cidadãos dessa cidade, nos abrirmos para isso e construirmos juntos esse resultado.”

 

 

 

 

 

 

CÉU, SOL, SUL, TERRA E COR

Uma das músicas mais conhecidas e cantadas pelos gaúchos foi recebida em primeira mão por ele, o então Pastor Hilmar Kannenberg, da IECLB, numa segunda-feira de manhã, quando chegava ao escritório da Secretaria de Comunicação. Mas a história do Pastor Hilmar começa muitos anos antes, tem capítulos na Alemanha, envolve música e, talvez, uma benção especial para quem nasceu num domingo de Pentecostes.

Quando criança, Hilmar apreciava percorrer três quilômetros para ir à escola no interior de Santa Rosa, todos os dias. Os sons da natureza, as cores do caminho, entretiam o menino. A família, depois, voltou de mala e cuia para Ati Açu, uma vila embrenhada em Sarandi, onde ele havia nascido. Fez ali até o quarto ano do primário e depois foi morar com parentes em Carazinho para concluir o quinto ano e a admissão para o ginásio. Com o apoio do Pastor local, foi estudar em São Leopoldo em 1955 como bolsista de uma das melhores escolas de línguas do sul do Brasil, o Instituto Pré-Teológico, hoje Centro Diretivo da Faculdades EST.

Himar diz que sua vida está marcada pelo “SIM”.

No IPT, aprendeu alemão clássico, latim, grego e um pouco de espanhol – e isso acabaria influenciando seu futuro. Em 1959, enquanto trabalhava como vendedor numa loja em Venâncio Aires, eis que entra um senhor bem apessoado e com voz grave diz:

– Vim falar com o Kannemberg.

– Sou eu – respondeu acanhado.

– Disseram-me que falas o alemão!? Preciso que faças o programa em alemão na rádio. O responsável está acamado. Te mostro e ensino tudo.

Assim começou, em 1961, uma trajetória profissional que apoiou e influenciou muita gente. No programa, usava discos de sucessos alemães emprestados por amigos. Ao final do bacharelado em Teologia seu professor de Antigo Testamento, alemão muito sério e exigente o chamou. “ – Ouço teu programa no rádio. É bem ruizinho. Mas, sei que vais ganhar uma bolsa para o exterior e tenho um cunhado na Rádio de Frankfurt. Se queres aprender mais …”

Já na Alemanha, o jovem Kannenberg estagiou nas rádios de Frankfurt, Berlim (na Universidade Livre), Munique, na BBC de Londres, na WACC (Associação Cristã Mundial para a Comunicação) e na Holanda. Retornou ao Brasil e, em 1967, casou-se com Martha Ingeborg Pommer e foi ser Pastor em Tuparendi, na barranca do Uruguai. Em setembro do mesmo ano saiu em viagem de 100 dias pelo país com um enviado da Igreja e da TV alemã para fotografar e filmar instituições educativas, sociais e de saúde apoiadas pela agência “Pão para o Mundo”.

Com toda sua bagagem, Hilmar foi procurado e atendeu ao chamado para participar do preparo da Assembléia Luterana Mundial, para criar a Secretaria de Comunicação e, sobretudo, da criação de uma estúdio profissional para gravação de programas radiofônicos e música, a ISAEC – Gravações e Produções. “Foi a primeira gravadora que abriu o estúdio para produção de discos. Houve aí a explosão da música nativista”, relembra. Para quem não sabe, a ISAEC teve uma contribuição ímpar para a cultura gaúcha.

“O objetivo do estúdio era prestar serviço às bases da Igreja Luterana, suas comunidades e público em geral. Mas, tinha que ser autossustentável e isso se fez pela gravação e promoção da música gaúcha, da música coral, da nossa música e de comerciais/jingles. E naquela segunda-feira, bate na porta um sujeito e diz: ‘Pastor, bom dia! Trouxe uma composição de presente para ti, em reconhecimento ao que estão fazendo pela música gaúcha’. Era o Leonardo – já falecido – na sua simplicidade, apresentando-me uma obra-prima, conhecida e cantada com orgulho por todos os gaúchos.

“Depois de ouvir, emocionado eu disse: – Considero essa música tão boa que tu não vais me dar de presente. Vamos registrá-la, como registramos todas as músicas inéditas gravadas aqui, e vais ganhar pelos direitos autorais, dinheiro, merecido, com tua obra”.

Hilmar Kannenberg, que se considera uma pessoa feliz, liderou o movimento que, em 6 de março de 1980, resultou na abertura da Rádio União FM, em Novo Hamburgo, Rio Grande do Sul – Céu, Sol, Sul, Terra e Cor.

 

 

 

DOUTORES & EMPREENDEDORES

Estamos assistindo em nossa cidade a uma revolução silenciosa, num segmento cada vez mais estratégico no mundo: a saúde. E de onde veio a ideia de investir num ativo tão promissor? Atrevo-me a dizer que ela vem se formulando daquilo que somos feitos e que faz a nossa história. Não foi de ontem para hoje, certamente, que construi-se este cenário promissor para implementação de um polo de saúde em Novo Hamburgo. Exemplo disso é a trajetória dos doutores Jurandi Bettio, Eduardo Rota e Cyrio Nácul do Centro de Diagnóstico Regina.

A parceria com o Hospital Regina começou a partir de uma necessidade. À convite da instituição, estes profissionais iniciaram, há 25 anos, um serviço de excelência nos setores de ecografia, densitometria e mamografia, aos quais, logo após, associaram-se os doutores Carlos Gustavo Hauschild na área de radiologia, Gustavo Bresolin, na área de ultrassom em gineco-obstetrícia e doutor Álvaro Borba na área de mamografia, prestando suas expertises. Alguns anos mais tarde, também atendendo ao padrão de qualidade da instituição e visando atender as áreas de tomografia computadorizada, ressonância magnética e PET-CT, os doutores Rodrigo Müller e Marcelo Abreu, somaram-se à equipe, complementando, assim, o mix dos serviços de imagem e diagnóstico do hospital.

São muitas especialidades reunidas para garantir que o paciente tenha o melhor diagnóstico.

Esse complexo de CNPJ’s e CRM’s aliado ao nome Regina, leia-se “irmãs Santa Catarina” é o Diagnóstico Regina. O grupo soma hoje mais de 20 médicos – e outra centena de profissionais e dispõe de estrutura e equipamentos de referência internacional.

A área de diagnóstico por imagem mistura a técnica – a formação do médico – com a empresarial. A associação estas expertises é crucial para o sucesso.

“Há 25 anos, começamos com um aparelho de ultrassonografia portátil e quatro pacientes”, comenta o Dr. Cyrio. E o prazer de trabalhar com colegas competentes e ainda poder formar parceria com uma instituição já renomada como o Hospital Regina, tem-se como certo um futuro promissor.

O Dr. Rodrigo salienta; “na área de radiologia são dois os clientes, o paciente e o médico. É uma área complementar, de assistência. Portanto, não basta ter a confiança dos pacientes, tem que ser respeitado também pelo corpo clínico”.

A maioria das pessoas, assim como eu, não fazem ideia de tudo que envolve esse empreendimento, muito menos os compromissos, pois eles embasam os procedimentos que serão adotados pelos profissionais da saúde de um lado e a instituição do outro.

O Dr. Cyrio informa que os empreendimentos, complexos em sua operacionalidade, são geridos, na sua quase totalidade, pelo hospital, e o que conta em primeiro lugar é o fator humano na prestação do serviço, visando o paciente como o bem em si.

O Dr. Rodrigo ressalta mais um importante avanço na área de saúde da região, o curso de medicina da universidade Feevale e sua parceria com as instituições de saúde, entre ela o hospital e centro clínico Regina, acreditando que ampliará o escopo na área da saúde, com ampliações das estruturas já estabelecidas e a construção de outras.

“A população está ficando mais longeva e mais preocupada com a saúde. O aumento pela demanda dos serviços de saúde está relacionado com o aumento destas expectativas, isto resultando em muitos avanços e valorização nas áreas de diagnóstico e tratamento.” E Novo Hamburgo é o palco desta nova fase

 

 

 

 

PRONTOS PARA ACELERAR

À frente de uma pasta de fundamental importância, Roberta Gomes de Oliveira, Secretária de Desenvolvimento Urbano e Habitação de Novo Hamburgo, acredita que a cidade evoluiu e está melhor preparada e posicionada para retomar seu histórico de desenvolvimento. Nossa conversa se deu a partir dos resultados da pesquisa que refiz este ano sobre nossa cidade. A primeira foi em 2017.

Roberta Gomes de Oliveira.

De lá para cá, afirma, muita coisa mudou. “Quando conversamos da última vez a prefeita havia conseguido resgatar o recurso do BID. Estávamos finalizando os projetos para iniciar as obras. Foi uma situação de muito trabalho, tumulto, insegurança. Desde o final do ano, temos o centro todo revitalizado, as pessoas elogiando o resultado, sentindo-se orgulhosas outra vez.”

Na consulta realizada – sem caráter científico – a segurança apareceu numa situação menos preocupante para os respondentes e chamou minha atenção. A secretária acredita que as ações realizadas influenciaram diretamente esta percepção. “Este conjunto de medidas está atraindo novos negócios, a cidade fica mais convidativa e isto trouxe bons resultados até para a segurança”, afirma.

O plano de trabalho, recorda, tinha como prioridade a retenção dos negócios no município para, aí sim, atuar na atração. “Somos permanentemente abordados, tanto aqui na secretaria do Planejamento como também na Diretoria de Desenvolvimento Urbano, por empresas fazendo questão de permanecer na cidade, ou então, buscando a cidade por ser um polo interessante de investimento.”

Em alguns aspectos, Novo hamburgo realmente vem mostrando-se mais competitiva. Tem coisas importantes para acontecendo, projetos em andamento ou por começar, como o Toque e Fale, do Santander, que vai trazer 4.000 empregos para o município. A Havan, novas unidades da Doctor Clin, ampliação do Hospital Regina, finalização do Hospital da Unimed, entre outras.

“Dá para perceber claramente que a cidade está pulsando, atraindo novas empresas de construção com projetos de padrão médio e com uma quantidade significativa de unidades habitacionais. Acaba em geração de empregos, renda, moradias. Logo a roda volta a girar e teremos muito para comemorar.”

Perguntei o que a secretária considera muito relevante na sua pasta e ela citou a Lei da Regularização das Edificações, o SigNH, as realizações concluídas. “Temos muitos motivos para olhar para nossa secretaria e ter a sensação de um dever bem cumprido até o momento. Esta Lei das Edificações facilita a regularização dos imóveis. Durante muitos anos e por diversas conjunturas, esse processo era complexo, burocrático, estressante. Impactava a economia diretamente. Uma empresa que tinha necessidade de ampliar suas instalações não conseguia aprovar o novo projeto sem estar com as edificações anteriores regularizadas e aí trancava tudo, o pessoal desistia, não acontecia.”

O SigNH é , para ela, motivo de grande satisfação! Trata-se de um portal de acesso do cidadão, criado pela equipe interna da Secretaria de Desenvolvimento Urbano com a parceria da Diretoria de Tecnologia do município. Reúne um conjunto de informações georeferenciadas do mapa da cidade, que está disponível a todos. “É uma ferramenta poderosa, que ajuda e agiliza as atividades de diversos profissionais e também da equipe interna da prefeitura”, conclui.

 

 

74 PAÍSES NA BAGAGEM

Este sim, é um homem que pode se dizer viajado. Armindo Robinson, fundador da Socaltur Turismo, tem milhas e milhas internacionais na sua bagagem de vida. Seu roteiro como empreendedor iniciou quando o pai comprou parte da empresa de ônibus do senhor Heinz, que vinha a ser sogro de Armindo. Além do grau de parentesco já estabelecido, tornaram-se sócios.

A empresa, sediada em Ivoti, tinha 4 ônibus. Precisava se desenvolver, mas naquele local não havia espaço para aumentar a frota e, em contrapartida, estava faltando serviço para ocupar a mão de obra contratada. Seu Armindo ressalta que é um homem do interior, não cursou faculdade, mas esteve sempre próximo de amigos e pessoas inteligentes. E foi por essas relações que acabou encontrando uma estratégia de desenvolvimento para o negócio.

Maica Feronato segue os ensinamentos do seu Armindo há 19 anos e, atualmente, é a gerente de operações da empresa.

“Tinha um amigo chamado Urbano Kehl, professor da PUC na época, que começou a contratar nossos melhores ônibus para viagens à Foz do Iguaçu, aliás, meu primeiro destino turístico na vida. Ele disse pra mim:

– Armindo por que tu não vai para Porto Alegre? Abre lá uma agência de turismo, por que é o futuro.” Mas naqueles anos, a capital estava muito distante. Só que a ideia era boa e seu Armindo, praticante de bolão e torcedor do Floriano de Novo Hamburgo, viu aqui o lugar para se estabelecer.

Próxima de Ivoti e de Porto Alegre, a cidade tinha o setor calçadista se projetando, pessoas trabalhando muito, mas ganhando dinheiro e podendo viajar. Havia demanda e, em 1978, alugaram uma pequena sala para receber a Socaltur Viagens. “Compramos um ônibus de turismo e começamos a desenvolver. Meu problema, então, foi a falta de profissionais. Arrumei alguns professores do interior e conseguimos que a Feevale abrisse um curso para guias turísticos.”

Seu Armindo relembra dos tempos que trabalhava 20 horas por dia, do final de semana que partiram 11 ônibus da companhia levando turistas para o Salto de Sete Quedas, maravilha natural inundada por um lago artificial, da compra de 8 ônibus novos de uma só vez, da aquisição da sede da Socaltur e do nome da dona Ilse Wigels, uma senhora de Canoas que procurou a empresa porque queria fazer um roteiro pela Alemanha.

A Alemanha é um país que o fundador da Socaltur conhece como a palma da sua mão.

“Éramos vistos como os alemãezinhos do interior, então, fizemos o primeiro grupo com 70 pessoas para a Alemanha. Cheguei lá me sentindo em casa. Eu, quando jovem, lia a bíblia em alemão. Essa viagem virou notícia, saiu no jornal e promoveu o nome da Socaltur. Aí, fiz curso de guia internacional.  Foram emitidas 20 carteiras de guia internacional no Brasil e fui o único representante entre os estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.

“Viajei e estudei toda a Alemanha. Fiquei sabendo de tudo o que aconteceu na II Guerra Mundial, isso me machucou muito, pois viajava para esses lugares e tinha que saber. Como tinha que saber dos outros também. Me virava falando quatro idiomas e percorri 74 países. Por isso, sempre fui muito amigo dos livros. A América do Sul , fiz toda ela dirigindo ônibus”.

 

 

 

 

TIC-TAC, TIC-TAC

Criador do relógio no sentido anti-horário, hamburguense nascido em Rolante, colono-relojoeiro, Remi Scheffler, representante da terceira geração da joalheria batizada com o sobrenome da família, além dos títulos inusitados, é formado com excelência pela Escola Suíça de Relógios e em administração de empresas.

“Meu avô era um colono em Rolante e reparava tudo. Ele tinha esse dom de consertar. Era funileiro, relojoeiro, arrumava guarda-chuva e o que mais aparecesse. Com o passar do tempo, envelhecido, foi tendo dificuldade para enxergar. Como via talento no meu pai, que o acompanhava sempre, apelou para que o ajudasse na montagem de coisas mais delicadas.”

Muita paciência e conhecimento fazem do relojoeiro uma profissão mágica.

Em 1953, Waldo Scheffler, pai do Remi, e o irmão dele, resolveram empreender e constituíram a empresa. O negócio deu muito certo em Rolante e os dois, então, vislumbraram a possibilidade de crescimento, desde que tivesse um mercado maior e mais atraente para conserto e venda de relógios e joias. Foi assim que vieram parar em Novo Hamburgo e foi assim que Remi tornou-se hamburguense de coração. “ Isso foi em 12 de abril de 1962”, recorda. Até hoje, a Joalheria Scheffler está no mesmo endereço, na Rua Bento Gonçalves, 2236.

O tic-tac dos ponteiros pontuam a vida deste relojoeiro desde a barriga da progenitora. “Minha mãe atendia o balcão enquanto o pai consertava os relógios e joias.” O guri cresceu dentro da loja. Via os relógios chegarem esfacelados e ficarem novos em folha depois de passarem pelas mãos talentosas, pela paciência e conhecimento do pai e aquilo o encantava. “Isso tudo eu achava uma coisa muito mágica.”

O certificado de relojoeiro de excelência no estado do Rio Grande do Sul, pela Escola Suíça de Relógios, é um dos orgulhos do Remi. Eram poucos alunos que podiam participar, pois o curso, na época, tinha o custo de um Fusca. Foi ministrado em Porto Alegre por uma equipe vinda da Suíça, somente para quem já era relojoeiro, e teve a duração de meio ano. Era um curso para afinar, lapidar o conhecimento.

O relógio anti-horário? “Certa vez, em 1985, sentado numa barbearia, pensei: – Vou inventar um relógio que, se tu colocar contra o espelho, ele vai andar certo. O cara achou engraçado. E eu me dediquei e fiz.. Lógico, hoje se tornou de domínio público, tudo mundo faz, mas em 85 eu fiz esse relógio. Esse relógio girou o mundo. Fez muito sucesso. Eu vendi muito para tudo que é lugar. Até uma matéria ao vivo saiu na TV Record, em rede nacional. Um hamburguense que é o criador do relógio anti-horário.

Pai e filha: um trabalho sincronizado visando oferecer o melhor para seus clientes.

Remi ainda vê muito futuro para a Joalheria Scheffler. A filha, Aline, não conserta relógios, brinca. Mas é uma empreendedora. “Temos muitos projetos pela frente. Em breve devemos apresentar uma surpresa para a comunidade de Novo Hamburgo, audaciosa, diferenciada. Além disso, um dos meus projetos é ministrar cursos para relojoeiros.”

Atenção, rapaziada! Relojoeiro, por parecer uma profissão em extinção, ficou muito valorizada. O empresário me confidenciou que quando procura um profissional encontra dificuldades. Os que existem estão empregados, são muito bem pagos e não saem do seu emprego. E a maioria dos jovens não têm se interessado. Fiquem de olho, portanto, porque Remi Scheffler deve lançar, em breve, um curso de relojoaria em Novo Hamburgo.

Pergunto se empreender no centro é negócio. “Eu incentivo todas as pessoas que pensam em empreender, em abrir seu próprio negócio, que se animem e façam. No centro ou onde julgarem melhor em Novo Hamburgo. Hoje 62% da arrecadação de tributos do município vem do comércio varejista. O que mais precisamos fazer é a economia girar.”

Fotos: Divulgação

 

 

 

 

 

 

 

TUDO PODE MELHORAR

Em 2017, após fechar os resultados de uma pesquisa por mim realizada, entrevistei o General Roberto Jungthon. A segurança aparecia como a primeira na lista de preocupações dos hamburguenses. Refiz a pesquisa este ano e o tema perdeu a relevância, o que é muito bom para todos nós.

General Roberto: com o registro de quaisquer ocorrências, as estatísticas podem ser melhor trabalhadas.

“O indicador utilizado para a medição da criminalidade no mundo todo é a taxa de homicídios” informa o General Roberto. Temos melhorado nossos índices neste e em outros indicadores. Ou seja, estão surtindo efeito as ações realizadas ao longo desta gestão. Em comparação com 2019, a queda nos homicídios foi de 45%.

O General faz questão de frisar que os avanços não advêm de um trabalho exclusivo da administração. “Mas são parte do conjunto de ações da municipalidade, que assumiu o tema da segurança e vem atuando com todas as forças que têm sede em Novo Hamburgo. Os resultados numéricos estão aí e são perceptíveis”, diz ele.

O enfrentamento à criminalidade, todos sabemos, pressupõem a existência de pelo menos dois fatores: recursos e pessoas. Temos nos saído bem pelo alinhamento dos atores envolvidos diretamente, otimizando, assim, os recursos financeiros, materiais e imateriais (procedimentos, normas) e tecnológicos. E as pessoas, que fazem a grande diferença.

“A nossa Guarda Municipal, que faz o elo entre ações preventivas e ações repressivas, tem hoje a tecnologia inserida no cotidiano dos seus agentes, melhorando as condições de trabalho e possibilitando a prestação de um serviço mais qualificado para a população.”

Os números publicados pela Secretaria de Segurança do Estado, com base nos registros de ocorrências de Novo Hamburgo, dão conta de que tivemos quedas muito expressivas também nos furtos e roubos às residências. De modo geral, a segurança avançou, comprovando que escolhemos o caminho adequado e que a cidade deve continuar acreditando na articulação dos esforços conjuntos das forças aqui sediadas.

Na entrevista de 2017 o General Roberto Jungthon havia antecipado ações também na prevenção à violência. Questionado agora, ele respondeu que:

“Associado à questão da repressão, houve um investimento considerável neste quesito e aí a parcela do município é maior. Nos últimos 2 anos, o Programa de Desenvolvimento Integrado teve algumas partes mais visíveis: o Parcão, o Centro, a Praça do Imigrante. Mas também fez parte desse programa um projeto dedicado exclusivamente à prevenção da violência, onde tivemos uns 25% da população impactada. Não é um número trivial.”

Fonte: Secretaria de Segurança de Novo Hamburgo.

Será que as pessoas já percebem essa melhoria? Não temos uma régua que meça essa isso, mas há, sim, evidências. Pergunto se é possível que as pessoas que residem em casas de rua sintam-se mais seguras. O General Roberto nos acena positivamente.

“Eu acredito que sim, e esse não é só um parecer fundado na esperança. Por que eu acredito que isso vá acontecer? Porque estamos vivendo um momento de consciência de todos: agentes públicos, cidadãos… Há esse esforço explícito dos órgãos governamentais sendo postos em prática. Existem concursos que estão aumentando o efetivo, tanto aqui no município, que já tem um concurso em andamento – só foi suspenso devido à pandemia -, e há também na Polícia Civil, na Susepe, na Brigada Militar. E o cidadão cada vez mais fazendo sua parte, fazendo um boletim de ocorrência, denunciando, se importando e ajudando.”

Foto: Divulgação

 

UMA VIDA NA FUNERÁRIA

Em 1922 o seu Carlos Krause fundou uma lojinha em frente à Praça Vinte de Setembro para fabricar móveis. 5 anos se passaram e, numa noite, muitos carros cercaram a praça e ligaram seus faróis iluminando-a completamente. Deu-se ali, a reunião que selou a emancipação de Novo Hamburgo. Quem recordava e contava essa história era a avó do Sr. Alberto Franceschetti, o Beto Krause, da funerária. O episódio passou-se em 1927.

Na nova cidade logo ocorreria um óbito. Óbvio! Em não havendo funerária, perguntaram ao seu Carlos se faria um caixão. Ele fez. Morreu mais um. Ele fez outro. E assim a lojinha foi virando funerária. Dna. Adolfina, a esposa, administrava o negócio.

Aqui ficava a loja de móveis que deu origem ao Grupo Krause.

“Eu nasci dentro da funerária. Lembro da vó da minha mãe e da tia Frida dando o acabamento nos caixões, invariavelmente com tecido preto, preso com tachinhas. Eu era um piruzinho, ficava sentado numa escada observando o trabalho delas. Com 12 anos, meu  pai já era o proprietário e comecei a ajudar. Fazia cruz, fita, forro… Aos 14 já puxava enterro, dirigindo sem carteira de habilitação.”

A família não tinha carro, nem dinheiro para comprar um. “O pai era muito amigo do pessoal do Curtume Júlio Adams, que ficava logo acima. Quando morria alguém, pedia emprestada a camionete, fazia o serviço e devolvia ela. Assim foi até conseguir comprar o dele. Meu pai fez o primeiro carro fúnebre de Novo Hamburgo.”

São constantes os encontros da equipe a fim de melhorar seus processos e serviços.

Funério, papa defunto e coveiro foram alguns dos apelidos com os quais teve de conviver. Mas não colaram, o Beto que trabalhava 24 horas por dia, 7 dias por semana, 30 dias por mês, 365 dias por ano falou mais forte. “ Vale lembrar que perdi muita namorada. Elas tinham medo de mim, não gostavam de pegar na minha mão.

Acabou conhecendo a Beth, que sempre foi uma baita companheira e casou-se aos 22 anos. “Minha vida era ali dentro, não podia sair. Trazia a Beth,  de repente tinha que sair para atender um serviço e quando voltava, encontrava ela sentada na frente, atendendo uma outra família.”

Histórias não lhe faltam. Naquela época, conta ele, o jornal NH tinha uma única edição semanal. A forma encontrada pelas funerárias para divulgar os falecimentos era imprimir cartazetes numa gráfica e distribuí-los nos bairros que a família indicava. Geralmente, afixavam nos postes de luz e árvores.

Beto trabalhou auxiliando o pai até este se aposentar. Em março de 1981 assumiu o comando. “Eu tinha um objetivo e isso me fez lutar muito. Me esforçava, aprendi como devia fazer… e foi dando certo. Quando criaram as capelas mortuárias do Regina, percebi que tinha que transferir a funerária para mais perto, com o propósito de dar um melhor atendimento aos meus clientes, pois estávamos na Julio de Castilhos e não existia a comunicação como existe hoje.”

Beto passou o bastão para seu filho, Gilberto Franceschetti.

A sensibilidade de empreendedor foi se aguçando com o tempo. “Muita gente vinha falar comigo para pagar adiantado o enterro de um familiar, mas não podia aceitar, pois poderia não estar mais aqui quando precisassem. Então, em 1998, criamos o Assistencial Krause, cuja sede é, hoje, naquela casa perto da Praça Vinte. E nesta semana, foi inaugurado o Memorial Krause, um cemitério com tecnologia de última geração.

Atualmente, Gilberto Franceschetti, quarta geração da família, é quem comanda o Grupo Krause. Mas as melhores histórias quem conta ainda é o Beto da funerária.

Fotos: Divulgação

PENSAMOS IGUAL, MAS DIFERENTE

Com o propósito de “quanto melhor conhecermos, melhor poderemos fazer um pelo outro”, disparei em abril último uma nova pesquisa.

Como consultor imobiliário, saber o que pensam os moradores hamburguenses sobre a cidade que escolheram para morar e poder compartilhar os resultados é muito bom. Afinal, Somos todos Novo Hamburgo!

Não há receita para um bairro ser bom. Na sua grande maioria diferentes perfis de moradores convivem numa determinada região. E, portanto, não é possível generalizar as percepções de cada um, mas temos alguns indicadores, como localização e conveniência da infraestrutura oferecida, exercerem grande influência sobre a qualidade de vida.

A pesquisa se deu através de 3 perguntas. Vamos lá:

1º COMO AVALIA SEU BAIRRO?

Neste sentido, percebe-se um equilíbrio, com a grande maioria dos participantes classificando o seu bairro como bom e muito bom.

2º O QUE PODERIA MELHORAR?

Das respostas compiladas, 94,20% evidenciaram 7 pontos em comum. A grande maioria, portanto, mostrou que está pensando a cidade sob o mesmo prisma. Ao menos é o que se depreende quando o conjunto de preocupações aponta para os mesmos fundamentos.

3º MORA EM CASA OU APARTAMENTO?

Diferentemente da pesquisa realizada em 2017, a participação apresentou um número significativo de moradores de casas. Penso que esta opção tenha se fortalecido pela melhoria da segurança.

Quero deixar claro que os levantamentos aqui apresentados não têm base num estudo científico, mas refletem as opiniões dos públicos com quem me relaciono na Revista Expansão e no blog, aos quais agradeço de todo coração pela atenção a mim dispensada. E, desde já, quero convidar quem pensa diferente para participar das próximas pesquisas.

Até lá!

 

Ô DE CASA

A campainha era assim, no grito, quando todos os hamburguenses viviam em casas. Se não era no grito, era batendo palmas na frente da residência que as pessoas tentavam chamar a atenção do morador, fosse para pedir emprestada uma ferramenta, algum insumo que faltara na cozinha, para se informar de alguma ocorrência ou saber a opinião do vizinho sobre qualquer assunto.

Retrato de rua já densamente povoada no bairro Hamburgo Velho, quando vizinhos ainda se conheciam pelos nomes.

Essa lembrança me veio quando comecei a disparar um novo questionário para clientes, amigos, leitores e os hamburguenses com quem tenho alguma possibilidade de contato digital. Gastei bons minutos me deliciando com as fotografias mentais daqueles tempos longínquos e me divertindo com o comparativo de épocas. Imagine ir de porta em porta, chamando ou batendo as mãos para ouvir a opinião dos vizinhos hoje.

O nosso modo de vida mudou! Mas é interessante como algumas características originais, por assim dizer, marcam diferentes culturas, cada qual com suas particularidades. Meu estudo, como os anteriores que realizei, não tem caráter científico, obviamente. Colho informações e formulo minhas percepções para orientar meu trabalho de consultoria imobiliária e para inspirar histórias ou compartilhar informações aqui no blog, na Revista Expansão e  no espaço do associado da ACI. Você deve estar se perguntando: mas que particularidade foi essa que se destacou tanto? Eu digo: mantém-se entre nós, um apreço muito grande por viver numa casa.

Recentemente, conversei com a  Jacqueline Schneider, psicóloga, pois queria que ela fizesse uma reflexão sobre a nossa realidade atual, envolvidos por uma pandemia que jamais pensávamos viver. Ali o assunto já se insinuou, mas por outro viés. Palavras dela: “Esse lugar onde eu vivo, ele realmente me representa? Me acolhe? Me satisfaz?

Um contingente significativo de moradores de Novo Hamburgo continua dando valor a residir em casas. Penso que esta opção também tenha se fortalecido novamente, pela melhoria de um indicador importante: a segurança. Houve uma diminuição considerável de citações dos participantes com esta preocupação e um crescimento de menções às residências.

Outro fator que se destacou foi a satisfação de mais de 50% dos respondentes com os bairros em que vivem. Percebia isso nas conversas com empresários para o “Empreendendo nos Bairros”, entrevistas do blog com representantes da nossa economia. Particularmente, considero isso muito positivo, pois este tipo de relação com o ambiente físico faz com que, naturalmente, as pessoas dediquem maior atenção aos passeios públicos, à limpeza, arborização e benfeitorias outras que afetam diretamente o dia a dia de cada morador. Quem gosta, cuida.

A relação com o patrimônio histórico, aos poucos, vai ganhando relevância. Com percentual ainda distante de lembrança, ao menos já aparece alguma preocupação em relação a essa herança tão importante e representativa da nossa sociedade. Poucas cidades têm uma riqueza histórica tão expressiva como a que temos e é fundamental que se preserve e se proteja todo esse legado.

Patrimônio Histórico: parte da nossa identidade está diretamente ligada aos antecessores.

A todas e todos que participaram deste estudo, gostaria de deixar meus sinceros agradecimentos. É muito gratificante encontrar apoio e participação da comunidade da gente numa iniciativa assim, que não tem pretensões além daquelas destacadas lá no início desta matéria. Das respostas compiladas, 94,20% evidenciaram 7 pontos em comum. A grande maioria, portanto, mostrou que está pensando a cidade sob o mesmo prisma. Ao menos é o que se depreende quando o conjunto de preocupações aponta para os mesmos fundamentos. Nas próximas edições vou me dedicar a explorar cada um deles, entrevistando as pessoas que respondem diretamente por cada assunto. Espero ter a sua companhia.