Reminiscências sobre um visionário: Ernest Sarlet

Para relembrar alguns e não deixar esquecer a outros o seu nome e a sua visão, fui tomar um café com a professora Traude. Traude Schneider conheceu e conviveu com o professor Sarlet, uma das mentes mais privilegiadas e respeitadas do nosso passado recente. Homem de temperamento forte, criado no Velho Mundo, enfrentou uma grande guerra e, quando desembarcou por aqui, trazia gravado na alma as razões pelas quais deveríamos trabalhar para não permitir que acontecesse entre nós, aquilo que vivenciara.

Prof. Ernest Sarlet, um belga apaixonado pelo Brasil e pela natureza.

A professora Traude conta que Sarlet era um homem de muita cultura, que contribuiu decisivamente para o que nós somos. Chegou na Fundação Evangélica em 1955 e a primeira aula que deu foi de história, para a turma dela. Era um dos tantos professores que vieram fugidos da guerra ou depois dela para viver aqui. Acreditava num homem melhor, num ser humano inteiro, com conhecimento, com cultura, com respeito pela natureza.

“Ele atuou muito tempo como professor e fez carreira na Fundação Evangélica. Chegou a Diretor Geral. Trabalhou fortemente na modernização das relações, fortaleceu os Círculos de Pais e Mestres e gestou a criação de uma nova estrutura: a Instituição Evangélica.” O conhecimento, a filosofia, o caminho que ele queria para a educação causava encantamento.

Como Secretário de Educação de Novo Hamburgo implementou o conceito “do aipim ao computador” nas escolas.

Foi por isso que Traude e outra ex-aluna, Berlize Ko Freitag, aceitaram o convite para trabalhar com o professor e assumiram a vice-direção em outras unidades sob a sua batuta, que eram das comunidades religiosas de Hamburgo Velho e Novo Hamburgo.   Cada uma cuidava do seu perfil de cliente, mas todas trabalhavam sob um mesmo propósito.

“Foi um trabalho complexo, dele e de nós duas, transformar três escolas em uma só, com um pensamento só. Tínhamos que trazer as colegas das outras unidades como irmãs”, lembra a professora Traude. No início do ano, Sarlet organizava um seminário com as três escolas. Falava ele e quem mais fosse necessário para apresentar os propósitos do ano. Depois, cada escola trabalhava o seu método, sabendo que fazia parte de uma unidade. E tinha que prestar contas.

É Negócio? Confira
Jorge Trenz
 Sua política era uma educação integral. Ele defendia que nós temos que ensinar o aluno a ser um cidadão, cuidar da sua cidade, da sua escola, do meio ambiente, da arte e de si mesmo. Os pais o respeitavam enormemente. Sobre política na escola, Sarlet pregava que somos todos cidadãos políticos, mas não podemos fazer política partidária dentro da escola.

O professor Sarlet trouxe para Novo Hamburgo o grande incentivo da escola de educação infantil. Na Alemanha, havia a “kindergarten” – Jardim de infância, e ele replicou. Introduziu nas escolas o psicólogo, o supervisor escolar. A informática. As professoras eram motivadas ao trabalho porque ele dava condições de estudo, aprimoramento. Pouco se sabia sobre educação infantil até sua chegada.

Profª. Traude Schneider

Traude afirma: “ele era um visionário. O prefeito Atalíbio Foscarini, que também olhava adiante, que queria uma Novo Hamburgo próspera, teve a sensibilidade de convidá-lo para Secretário de Educação. Sarlet trouxe a informática para o ensino municipal, com o conceito “Do aipim ao computador”. Do Distrito Rural de Lomba Grande ao centro da cidade, todas as escolas deveriam dar acesso ao computador.”

“O que será que o professor Sarlet pensaria da educação hoje? É um boa pergunta para os pais e educadores responderem”, reflete a professora Traude.

Colaboração: Cinara de Araújo Vila – Procuradora do Município de Novo Hamburgo

Fotos: Divulgação

 

 

A oficina era o paraíso para Pussuka antes mesmo dos 10 anos

Seu apelido ele gravou na história sobre rodas da cidade. Se tem uma oficina que acompanha a evolução de carros, motos e agora até caminhões, da mecânica à lataria, sendo a mesma referência em serviços há mais de 50 anos em Novo Hamburgo, esta assina Pussuka. Tudo começou com um menino metido que aos 8, 9 anos de idade, via a oficina de um amigo da família como o próprio paraíso. Ficava lá até escurecer.

Samuca e Pussuka, filho e pai, 50 anos de história.

“Lá em 68 eu trabalhava com o Antônio Ventre e, à noite, eu trabalhava em casa. Depois fui para Ford, de onde saí em 72. Como já tinha a oficina montada, resolvi partir para o meu próprio negócio. Começou muito devagar, muito lento, na casa do pai, lá na rua Anchieta. Depois fomos crescendo e em 1980 vim para cá, onde estou até hoje.”

É Negócio? Confira
Jorge Trenz
 A Pussuka Mecânica de Automóveis se repete com Samuel, o “Samuca”, seu filho. “Estudava e depois ajudava na oficina.” Samuca também foi se apaixonando pelo negócio, se infiltrando na oficina do pai, querendo dar opiniões. E amava os turbos. Nos finais de semana, Samuca se trancava na oficina buscando se aprimorar. “Quando entrou aqui, ele tinha uma inclinação forte por mecânica, fazia coisas nos carros que ninguém fazia. Como eu.”

Moto customizada para São Paulo.

“Sempre gostamos de competições. Quando o Samuca era mais novo, competiu com Kart, protótipos. Venceu campeonatos brasileiros, gaúchos. A gente não tinha equipe, éramos somente nós, pai e filho. Lembro que ele descia do carro, baixava o macacão e já se enfiava debaixo do auto ou dentro do motor, procurando maneiras de melhorar desempenho, competitividade.” A produção de protótipos também sempre esteve na história de Pussuka, que atualmente incorporou mais uma especialidade sobre rodas: a customização de motos.

A oficina, hoje, está também no segmento  de caminhões. Samuca conta que diversificou porque o mercado muda e o empreendedor precisa acompanhar. Ele diz que Novo Hamburgo tem muitas oficinas, mas eles perceberam que oficinas de pesados eram poucas, embora a cidade tenha muito serviço de logística, por causa da exportação/importação.

Pussuka Auto Truck Center.

Pussuka considera que o bairro São Jorge é um bom lugar para empreender. “O bairro cresceu muito e a nossa rua deve muito ao Bagunça, que atuou junto ao prefeito Foscarini para trazer o calçamento e, mais tarde, o asfalto. Mas acha que falta uma praça, isso melhoraria ainda mais, deixaria o São Jorge mais atrativo. “Aqui não tem lugar para as crianças brincarem… os pais precisam sair do bairro.”

Fotos: Divulgação

 

 

Bem antes de ser dono de revista, foi engraxate, chapa de caminhão e sonhador.

A trajetória de Sérgio Jost, empresário que está à frente da revista Expansão há 20 anos, é um exemplo de persistência e de como vale a pena lutar por objetivos na vida. Ao lado da esposa, Ana, ele continua trabalhando muito, sorrindo sempre e acordando cedo. Aproveita para caminhar pela cidade e pensar. Um ser humano agradabilíssimo, um profissional exemplar que vem contribuir com o projeto “Empreendendo nos bairros”.

Sérgio e Ana, o casal que lidera a Revista Expansão.

“Minha responsabilidade começou muito cedo. Nossa família era bem humilde, bem pobre.” O pai trabalhava numa indústria fumageira, a mãe também. O casal, sozinho, não dava conta deles e dos filhos. Trabalhar, portanto, não era nem uma escolha, era uma necessidade para manter-se vivo, disse-me o Sérgio.

É negócio? Confira
Jorge Trenz
 Aos 9 anos de idade, sem alternativas, foi ser engraxate. Aos 12 anos virou chapa de caminhão, aquele ajudante de carga e descarga. Trabalho duro para um homem feito, imagine para um menino. Mas não pensava nisso, eram outros tempos e comprar os cadernos, um lanche no colégio quando dava, era algo que, normalmente, dependia dele mesmo. Tinha que dar conta sozinho. E tinha consciência disso.

Aos 17 anos, cobrador de ônibus, viu sua linha envolvida num acidente violento de trânsito. Sérgio fez a cobertura da ocorrência e mandou para o jornal da cidade. Eles gostaram e o convidaram para ingressar no jornalismo. Ele já estava fazendo reportagens na rádio Santa Cruz. “Comecei como o cara que espichava os fios nos gramados de futebol. Depois entrei como repórter.” Ele trabalhou em vários veículos do interior, dirigiu outros e fundou o primeiro jornal de Vera Cruz, em 1986: o Vera-cruzense

Equipe atuante e coesa garante a qualidade da revista.

Em 1997 ele e Ana se casaram. Ana morava em Novo Hamburgo, trabalhava num banco e a transferência que pretendia, não se concretizou. Passou um ano indo a Santa Cruz do Sul aos finais de semana encontrar o marido. Aquilo era muito difícil e a obrigou a pedir demissão no banco. Foi trabalhar na revista, com o Sérgio. Em 1998, Gabriela nasceu. A partir daí, começaram a fomentar a ideia de ter uma revista em Novo Hamburgo, para ficar mais perto da família dela.

A primeira edição da revista Expansão do Vale circulou em 20 de dezembro de 1999. Ela depois mudou de cara, de nome e de sobrenome. Hoje é a Revista Expansão, de Novo Hamburgo, reconhecida no estado e no país. Consagrada com diversos prêmios do meio, a revista coroa uma trajetória profissional pontuada por diversos desafios para o Sérgio. Foram muitos empregos, muitas apostas, muitos tropeços, mas sempre olhando para frente. “As novas tecnologias influenciaram a linguagem jornalística. Ficou tudo muito dinâmico, mas eu continuo acreditando no veículo impresso que, por sinal, vem aumentando muito seu nível de credibilidade nas pesquisas”, diz.

Selo para lembrar da história e estimular o futuro.

Minha pergunta óbvia sobre o bairro: o Centro é um grande lugar para se empreender. “O quarteirão da Quintino Bocaiuva está virando, quase todo ele, comercial. É um espaço espetacular, com ruas, por enquanto, tranquilas. Muitos empreendedores estão vindo para fugir das ruas mais centrais, por causa do estacionamento, que aqui ainda não é uma dificuldade.”

“Uma das coisas boas é essa revitalização do Centro. Apesar de todas as dificuldades que os comerciantes sofreram no início. Quero aqui deixar uma sugestão para os proprietários dos imóveis: comecem também a se preocupar em revitalizar, pintar os seus prédios, dar uma nova característica para a cidade. Valorizar. E para o poder público eu sugeriria: coloquem muitas lixeiras. Eu caminho cedo e vejo sempre muito lixo jogado no chão: garrafas plásticas, latinhas, papel. Talvez com uma lixeira logo a frente…

Fotos: Divulgação

 

 

PONTO DE VISTA. O Centro das atenções 

Mais de 400 dias se passaram desde que homens metidos em macacões invadiram, com suas máquinas, o coração da nossa cidade. Sem dó nem piedade, abriram crateras imensas, expondo as entranhas do centro para quem quisesse ver.  

Parecia uma calamidade. Enquanto uns esburacava ruas e avenidas, arrancavam calçadas, postes e a capa asfáltica, outros sobre a praça arrancavam as esculturas, os poucos bancos e proibindo a todos o acesso que sempre tiveram. Ícones centenários foram fechados e ninguém mais podia tomar ali um café, jogar conversa fora, olhar o tempo passar.  

Os comerciantes se assustaram, os transeuntes se afastaram, poucos queriam ver ou conviver com tal situação, com tanta destruição. Houve revolta, mas nada se podia fazer a não ser rezar e esperar que um dia, tudo aquilo acabasse e a vida voltasse ao normal.  

Flashes de imóvel à venda
Jorge Trenz
 Vivemos tempos difíceis. Mas o que parecia o fim, era apenas o início de algo muito melhor. Casa nova, vida nova. A cada manhã o centro de Novo Hamburgo vai acordando um pouco mais bonito, mais atraente, mais encantador. Há menos homens de macacões e mais pessoas como eu e você novamente circulando pelas ruas. Menos máquinas e mais cafés sendo servidos nas Bancas. Há de novo um chafariz na praça, e bancos, e academia, e as esculturas com suas histórias antigas. 

Ao que parece, os últimos trabalhadores que tanto assustaram, mas que tão bem fizeram ao Centro, estão se preparando para deixá-lo e entregá-lo à comunidade. Limpo, organizado, lindo, convidativo. O centro das atenções da cidade está voltando a ser o Centro. Que saibamos cuidá-lo bem, tratá-lo bem, como aqueles a quem se quer bem. 

 

Uma escola só para garotas.

Entrevistei a professora Traude Schneider recentemente para a minha coluna na revista Expansão, que circula neste mês. O assunto foi o professor Sarlet e a contribuição enorme que ele nos deixou. Vale a pena ler. Mas para falar dele, a profª. Traude acabou me dando uma aula de história magnífica sobre a Fundação Evangélica e, consequentemente, sobre nosso passado nem tão longínquo assim.

Turma que concluiu em 1957 o curso ginasial na Fundação Evangélica, em Hamburgo Velho.

Em 1886, as irmãs Lina e Amálie Engel adquiriram um prédio pertencente a Jacob Kroeft para instalar uma escola para moças. A profª. Traude acredita que deviam ser umas 25/30 moças estudando ali naquele prédio que deu origem à Fundação Evangélica que depois passou a ser o Lar das Meninas.  “Naquele tempo, as meninas saiam da escola e iam para o culto na igreja do relógio de Hamburgo Velho”, conta.

Em 1952, o Ginásio era o forte da Fundação e tinha um curso chamado Economia Doméstica. Esse curso era ministrado para moças que chegavam de todo o Brasil. Vinham para se aculturar e, pasmem, aprender a ser donas de casas. Elas aprendiam a engomar roupa, a cozinhar com primor para, quem sabe, tornarem-se esposas de políticos ou empresários.

A Evangelisches Stift. Uma escola feminina evangélica alemã no cenário educacional brasileiro.

As meninas eram preparadas para atuar no lar e no ambiente social, me disse a professora Traude. Hoje isto é impensável, mas naquela época não era nenhum absurdo, não. Do contrário, era o máximo, porque as futuras senhoras estudavam história, inglês, alemão, francês, além de economia doméstica.

É Negócio? Confira
Jorge Trenz
  “Outra característica da Fundação ero o meio-ambiente”, relembra a profª. Traude. E por que isso? Os professores eram todos alemães, que vieram fugidos da guerra ou depois dela. Tinham como filosofia um ser humano inteiro, que cuida da natureza, que cuida da arte, que cuida de si. E ensinavam isso.

“Tem um morrinho nos fundos da Fundação com todas as árvores catalogadas com o nome cientifico”, diz a profª. Traude. “Uma vez nós fomos ao Morro de Dois Irmãos a pé, olhando a natureza, mas não podia pegar nada. Os professores tinham quase uma reverência pela natureza.”

A Casa das Artes foi o local escolhido para essa viagem cultural.

O estimulo às artes era outra característica forte dos mestres alemães. “Nós tínhamos um professor de música que tocava piano e cantava. Ele fez um caderno com todo o folclore brasileiro, de norte a sul. Cantávamos tudo em vozes.

Outra prática era ouvir música num toca discos, em profundo silêncio. E o que ele queria ensinar? Sermos espectadores, que hoje é uma coisa tão difícil para as pessoas.”

Uma curiosidade para encerrar essa aula da professora Traude: a família austríaca Von Trapp (The Sound of Music (bra: A Noviça Rebelde; prt: Música no Coração), se apresentou na Fundação Evangélica. Eles fugiram pela perseguição da guerra e se apresentavam cantando pelo mundo.  Estiveram entre nós, como o saudoso professor Sarlet, que nos proporcionou, pós-morte, esta conversa e a oportunidade de aprendermos mais um pouco sobre nós mesmos.

Colaboração: Cinara de Araújo Vila – Procuradora do Município de Novo Hamburgo

Fotos: Divulgação

 

 

Uma janela para o futuro. O nosso futuro!

Uma palavra muito empregada entre gestores modernos de negócios e no marketing atual é “propósito”. Pois há 50 anos, o conceito já circulava entre nós e foi definitivo para a criação de uma das nossas mais brilhantes criações: a Feevale. Criada pela comunidade de Novo Hamburgo, nas atas das primeiras reuniões já estava escrito: “Queremos ter uma instituição que forneça condições para que nosso filhos e as pessoas daqui se desenvolvam e desenvolvam a cidade, as empresas”.

Para o reitor, a indústria criativa vai unir a arte tradicional com as novas tecnologias.

Cléber Prodanov, reitor da universidade, me revelou isso em entrevista para a revista Expansão e afirmou que a Feevale está cumprindo o que foi pensado para ela. E foi categórico quando disse que não dá pra falar de Novo Hamburgo nos últimos 50 anos sem falar da Feevale ou vice-versa. Sua história está absolutamente atrelada à cultura que nos formulou e isso é inquestionável.

É Negócio? Confira
Jorge Trenz
 Nós tivemos uma trajetória muito importante no calçado, o que criou as bases econômicas para outras coisas. E aí a Feevale se insere, qualificando o nosso desenvolvimento. Começou como uma faculdade isolada, transformou-se em centro universitário, agregou a pesquisa, o parque tecnológico, até virar universidade. Transformou Novo Hamburgo num polo universitário e ajudou a oficializar a cidade como centro regional.

“Estamos sendo um elemento integrador importante mesmo à distância e ajudando a forjar a cidade que queremos ser no futuro”, disse o reitor. Por isso a expansão. Hoje a nossa Feevale tem 10 polos aqui no Vale e mais um na China. Este braço chinês é para atender nossa gente que foi morar e trabalhar lá, quando perderam o emprego na área do calçado aqui. Ir ao encontro deles significa muito e a troca de conhecimentos que isso pode gerar é do nosso interesse, claro.

Espaço de atração e encontro de pessoas que querem experimentar e desenvolver a sua criatividade.

A fundação da Feevale, muitos vão lembrar, deu-se com o curso de Belas Artes. Agora, veja que interessante: esta tradição que temos na produção artística e cultural, movimento teatral, escultura, pintura, canto coral continua refletindo e influenciando a história da universidade. Nas palavras de Prodanov: “O mundo se transformou e a criação de um ambiente de cultura talvez não passe mais necessariamente pelas artes tradicionais, mas por aquilo que a gente chama de indústria criativa. A indústria criativa vai unir a arte tradicional com as novas tecnologias.”

Em dezembro do ano passado foi criado o Hub de Inovação e Criatividade. É um ambiente para gerar negócios voltado para a indústria criativa. Prodanov diz que “As carreiras do futuro não foram inventadas. As profissões do futuro não foram inventadas. Temos que atuar com visões mais transversais. E a Feevale tem que estar na frente disso, formando pessoas que tenham condições de ter uma atividade cada vez mais plural, e não atrás, atendendo a uma necessidade do mercado.”

Hub One, uma estrutura voltada às empresas e aos negócios vinculados à indústria criativa.

Perguntei ao reitor “O que a Feevale construiu e quer deixar para a eternidade?” A resposta dele não poderia ser mais motivadora. “A eternidade não é matéria é espirito. E o que podemos deixar para a eternidade é esse espírito que temos de inovar, renovar, transformar e de estar sempre a serviço da comunidade. Não virar uma coisa meramente comercial. É preciso sobreviver, mas não podemos virar as costas para a comunidade que nos criou. É muito fácil a gente esquecer e achar que é autossuficiente. Então se a gente fala em eternidade, é espirito, e o espirito é, então, comunitário.

Colaboração: Cinara de Araújo Vila – Procuradora do Município de Novo Hamburgo

Fotos:  Nadine Funck  e Ana Knevitz – Universidade Feevale/Divulgação

 

Eles têm um palácio na cidade e a loja de música mais antiga do país.

“Naqueles tempos estacionavam os bondes ao lado das bancas. Onde agora é a pracinha tinha um chafariz e nele, lavavam as garrafas da fábrica de bebidas de meu pai, as gasosas”, conta Ariane Brusius. Ela é filha de Albano Brusius e irmã de Alexandre, o parceiro com quem toca o negócio da família.

A loja conta com espaços amplos e setorizados.

O pai, Albano, conhecido antigamente por todos como Professor Vanzetti, era homem de negócios nato. Natural de Taquara, sempre esteve envolvido com a comercialização de alguma coisa. Vendia carvão e teve a fábrica de bebidas antes de adquirir no bairro Rio Branco, a loja de instrumentos musicais que é a mais antiga do Brasil! O Palácio da Música.

É Negócio? Confira
Jorge Trenz
 O Palácio pertenceu, inicialmente, ao Arno Bohn, da fábrica de Órgãos Eletrônicos e ao Breno Blum. Depois de um período o negócio foi encerrado e os instrumentos que não tinham sido vendidos foram guardados em um depósito “O Palácio da Música existe por causa de uma troca que meu pai fez com o seu Arno”, diz Ariane.

Certo dia o professor, que era proprietário de um carro Modelo A, deu carona para o seu Arno, coisa comum na Novo Hamburgo daqueles tempos em que o automóvel não era tão comum assim. Conversa vai, conversa vem, aos trancos e solavancos estrada afora, resolveram negociar. O Modelo A e os instrumentos do depósito trocaram de mãos.

Assim, começou uma linda história de empreendedorismo. 30 anos se passaram e a família Brusius, liderando o Palácio da Música, atraiu clientes de Novo Hamburgo, da região e de Porto Alegre. Foram três décadas com a loja funcionando em frente à antiga rodoviária. O local era de fácil acesso para os músicos e interessados e ganhou fama pelo repertório de instrumentos e acessórios que oferecia.

A equipe de profissionais faz do atendimento um dos grandes diferenciais.

Depois, mudou-se para a esquina do Shopping. “Nós fomos para lá antes de começarem a construí-lo. Ficamos 21 anos naquele endereço e agora estamos há 6 anos aqui na Cinco de Abril”, diz Ariane. Ela e o Alexandre ficaram sabendo que são os mais longevos do ramo no Brasil a pouquíssimo tempo, apesar dos 57 anos em cena. ”

“Nós não sabíamos, ganhamos esse prêmio em São Paulo no ano passado. A Tagima (empresa de instrumentos musicais) nos convidou para o encontro anual promovido por eles com parceiros e uns 500 lojistas do Brasil. No evento, eles fizeram uma surpresa e anunciaram o Palácio da Música como a loja mais antiga em funcionamento no Brasil.”

O cenário mudou. Atualmente, muitas pessoas usam a música para se completar. Nas suas 24 horas do dia a dia, querem ter algo que lhes acalme, como uma dança, aprender uma língua nova, fazer uma viagem… E muitos querem tocar um instrumento, não necessariamente ser um profissional. “As pessoas encontram aqui uma loja com tradição, pessoal especializado para ajudar e orientar”, orgulha-se.

Músicos de várias regiões do estado prestigiaram o aniversário de 57 anos.

A família Brusius mudou o endereço do Palácio algumas vezes, mas nunca trocou de bairro. Ariane e Alexandre concordam que o bairro Rio Branco é bom para trabalhar. Nas palavras dela: “as coisas funcionam, é tudo muito próximo e tu consegue resolver tudo por aqui. Tem problemas de estacionamento, por isso eu gosto dessa coisa do ticket, quando a pessoa pode ficar 15/20 minutos. Senão o sujeito passa o dia inteiro com o carro estacionado e quem tem comércio, que precisa do giro fica prejudicado.

Fotos: Divulgação

 

 

 

Quem canta seus males espanta.

A música tem um poder sobrenatural sobre nós, humanos. E sobre os animais e até sobre as plantas, também. É uma linguagem de comunicação universal, com poderes para sensibilizar, aproximar, fazer amar. A música existe e sempre existiu como produção cultural. Desde que o ser humano começou a se organizar em tribos primitivas pela África, ela era parte integrante do cotidiano dessas pessoas.

Movimento Coral Feevale ensaia, semanalmente, desde março para a apresentação do próximo dia 29.

A música possui a capacidade estética de traduzir os sentimentos, atitudes e valores culturais de um povo ou nação. É uma linguagem local e global. Na pré-história o ser humano já produzia uma forma de música que lhe era essencial, pois era na arte que encontrava campo fértil para projetar seus desejos, medos e outras sensações que fugiam a razão.

Casa em Ivoti
Jorge Trenz
No fundo, todos nós somos amantes da música. Novo Hamburgo, com sua tradição coralística, é terreno fértil e eis aí, mais uma característica espetacular que eleva e ajuda a valorizar a cultura da nossa cidade. Recentemente, na minha coluna da revista Expansão, dei voz a Luiz Gerhardt, que tinha 8 anos quando ingressou no Coral Nossa Senhora da Piedade e nunca mais saiu. Logo após, um concerto lindo no Aliança reuniu a Orquestra de Sopros de Novo Hamburgo, o Coral Júlio Kunst e o Coral Meninos Cantores.

Logo mais, em agosto, o Colégio Sinodal da Paz será palco do 38 Encore – Encontro Nacional de Conjuntos Instrumentais da Rede Sinodal de Educação. Se quem canta seus males espanta, não há mal que perdurará sobre nós e nossa Novo Hamburgo. Para junho, já temos agendado um outro concerto especialíssimo, este para comemorar os 50 anos da Aspeur/Feevale. O programa que será apresentado celebra a trajetória de realizações e conquistas da instituição de ensino.

O Instrumental Feevale, com arranjos e ritmos ecléticos, vai embelezar ainda mais o espetáculo.

O repertório selecionado, com músicas nacionais e internacionais, é alusivo a uma caminhada de muito trabalho, desafios, união e fraternidade. As canções serão interpretadas por grupos de cantores e instrumentistas do Projeto Movimento Coral Feevale, representando a força do trabalho comunitário. Os ingressos são gratuitos e podem ser retirados na bilheteria do Teatro Feevale a partir do dia 24 de junho.

Mais informações em www.feevale.br/concerto50anos. Agende-se para 29 de junho, 20h, no Teatro Feevale. Só não esqueça de retirar logo o seu convite, porque o teatro vai lotar e gostaria de ver meus amigos e amigas lá.

Fotos: Divulgação

 

 

 

 

Das 7 da manhã até 23h na piscina. Vida de playboy?

A terceira escola de natação do Brasil nasceu em Novo Hamburgo. O nadador, Educador Físico e professor Elio Becker lançou-se ao desafio em 1976 e criou o Centro de Natação e Reabilitação Golfinho, aqui no bairro Rio Branco. Formado pela UFRGS, ele estudou na Universidade de Colônia, na Alemanha, é pesquisador e um ícone do esporte na cidade e entre os aliancistas mais vividos, principalmente.

Professor Elio Becker, nadador que tornou-se Educador Físico e especialista em reabilitação.

Você foi treinador de uma equipe de natação que orgulhou nossa cidade.

Tivemos bons nadadores na Sociedade Aliança e desenvolvemos um trabalho sério e com bases científicas. Obtivemos resultados e projeção, e eu trabalhava muito duro naqueles tempos. Duro mesmo. Lá pelos idos de 69, começava às 5 horas da manhã e ia até às 23 horas. Treinava a equipe do Aliança, dava aulas particulares, trabalhava em colégios. Colocamos a natação hamburguense num patamar bem alto.

Apto 3 dormitórios
Jorge Trenz
 E a terceira escola de natação do país foi pensada no meio deste processo? 

Se eu tivesse condições financeiras na época, possivelmente eu teria sido a primeira escola de natação do Brasil. Mas a primeira surgiu em São Paulo, a segunda em Porto Alegre e então veio a Golfinho. Já tinha pedido uma força para o meu pai, mas ele não acreditava no esporte e menos ainda no projeto. Queria que eu fizesse administração e fosse trabalhar na empresa em que ele era diretor, imagina. Tive que ir à luta.

Qual era o seu objetivo, visto que naquele momento era um segmento novo? 

Eu queria padronizar um trabalho, projetar atletas, chegar a resultados melhores. Depender de diretores, presidentes, complicava muito. Cada vez que mudava uma diretoria, mudava totalmente o interesse, a ideia. Aquilo não servia à minha expectativa de professor, nem de técnico de natação. Já tinha ideia, também, de ser dono do meu nariz.

Seu nome sempre foi uma referência das piscinas. Como construiu sua carreira?

Sempre procurei e procuro ser o melhor naquilo que faço. Não quer dizer que eu seja mais do que alguém, apenas é minha expectativa em relação a mim mesmo. Isto me fez estudar, estudar e estudar. Fui pesquisador em fisiologia e biomecânica e, quando fundaram o laboratório de pesquisa da UFRGS, o Lapex (Laboratório de Pesquisa do Exercício), o Dr. Eduardo de Rose, que depois foi Presidente da International Federation of Sports Medicine, com mais de 120 países integrantes, e membro das comissões médicas do COI e do COB me convidou para trabalhar com ele. Nunca parei de estudar.

Metodologia orgânica e funcional são alguns diferenciais da Golfinho.

É por isto que, nos últimos anos, tem se voltado mais para o trabalho de reabilitação?

Também. Estudar o corpo humano é excitante, uma atividade muito rica e complexa. Eu adoro e tenho feito um trabalho extraordinário com joelhos, coluna, ombros, todo tipo de lesão muscular e, também, no pós-operatório. Sempre dentro da água, claro. As atividades da escola continuam com alta qualidade técnica e humana, mas eu, realmente, tenho me dedicado mais à reabilitação.

Por que escolheu o bairro Rio Branco para colocar seu negócio? 

Eu idealizei a escola aqui no bairro desde o início, porque era um lugar bom, onde, na época, não havia problemas de estacionamento, ficava perto do centro e o acesso das pessoas de outros bairros também já era fácil. Agora é ainda mais fácil. Comprei a casa que estava sobre este terreno com o resultado de 3 anos de trabalho desenvolvido em Carazinho, mais um empréstimo bancário. Construí a primeira piscina e ela logo me deu um baita susto.

Que susto foi esse? 

Descobri que eu precisaria de 160 alunos para pagar tudo o que eu tinha que pagar. Se não tivesse 160 alunos eu estaria morto. Quando eu abri a escola em outubro de 1976, tinha exatamente 150 alunos esperando vaga. Abri a escola com 300 alunos, que era a minha capacidade. Eu entrava às 7 horas da manhã na piscina e saía as 9:30 horas da noite, direto. Tinha uma hora para comer alguma coisa ao meio dia e voltar para a piscina.

A natação é a prática mais bem recomendado do mundo em benefícios.

Que características o Elio Becker destacaria no bairro?

Quando eu era gurizão, esse bairro já tinha um comércio diversificado, com indústrias de calçados, curtume, Casa Cavasotto, enfim, marcas muito fortes da indústria e do comércio. Atualmente, é um lugar absolutamente integrado ao sistema de Novo Hamburgo, além de te dar muita independência. É um local de progresso.

 

 

 

 

 

 

 

 

Canto Coral – Surgido na idade média, virou patrimônio imaterial de Novo Hamburgo

A música praticada nos templos da Idade Média era o que conhecemos  popularmente por canto gregoriano. Músicos das grandes catedrais costumavam sobrepor melodias independentes sobre um determinado trecho, obtendo estruturas musicais mais volumosas e impactantes do que as simples melodias cantadas em uníssono. Esta forma musical reunia muitos cantores e era conhecida como organa. Dela que originou-se o canto coral, que teve como um grande centro cultor e divulgador a Catedral de Notre Dame, de Paris.

Coral Nossa Senhora da Piedade: uma atividade voluntária de paroquianos e paroquianas que praticamente não conhecem música.

O canto coral também é uma referência artística da cultura teuto-brasileira. Foram os imigrantes que trouxeram a “Hausmusik” (a música caseira) e o “Lied” (canto) para o Brasil. Os encontros nas igrejas católicas e evangélicas para cantar composições religiosas foram suas primeiras manifestações. Sobre isso, e porque somos parte importante nessa história, fui conversar com a Irmã Veronice Weber e Luiz Gerhardt, que tinha 8 anos quando ingressou no Coral Nossa Senhora da Piedade. E nunca mais saiu.

Em 1954, por iniciativa do Mons. Edmundo Backes, foi organizado o Coral Nossa Senhora da Piedade. O jovem padre, natural de Sinimbú/RS, veio da capital gaúcha para a distante e já antiga Paróquia Nossa Senhora da Piedade. Na bagagem, trazia muitas partituras e livros de canto e liturgia, paixão antiga do néo-sacerdote. Ao chegar nestas terras de Hamburgo Velho, logo convidou paroquianos e iniciou os primeiros movimentos de canto religioso.

Luiz Gerhardt tinha oito anos quando ingressou no coral e nunca mais saiu.

Em janeiro desse ano o coral completou 65 anos e Luiz Gerhardt restou o único remanescente daquele grupo. Homens e mulheres foram se somando nesse período, mas muitos já estão hoje com 40, 50 anos de participação no coral. “Uma das maiores dificuldades que vivenciamos não é somente o acréscimo de pessoas, mas sim um acréscimo de pessoas jovens”, afirma Luiz.

Os corais têm sido uma das maiores forças vivas da nossa comunidade. Participam intensamente nas atividades sociais das igrejas e em eventos. Luiz diz que o nosso movimento coral influenciou o avanço da organização da teoria musical. “Ajudou a desenvolver e refinar o canto até chegar à formas mais ordenadas de estruturação, o que proporcionou o surgimento do moderno canto coral. É preciso preservar isso e evoluir ainda mais”, completa.

Um coral demanda bastante tempo e, por isso, há muita dificuldade para renovar os quadros. A atividade é de grupo e eminentemente técnica. Hoje, exige ensaio contínuo e ininterrupto. “Mas pela tradição e porque ainda existem profissionais totalmente comprometidos com esta arte, o município continua sendo um polo forte”, diz Irmã Veronice.

Irmã Veronice, regente há 10 anos.

“No caso específico do Coral da Piedade, a perseverança de seu fundador, regentes, organistas e componentes manteve a instituição ativa e atuante até os dias de hoje” complementa Luiz. O Coral da Piedade ganhou notoriedade, também, pela difusão das suas apresentações.

“Em 1997 começamos a ensaiar encenações. O criador era o irmão José Bernardes. Nessas apresentações falávamos muito do Antigo Testamento, do Paraíso, de Adão e Eva. Praticamente metade do coral virava intérprete e a outra metade dava força no canto. Nós viajávamos a cada 3 meses, isso é um fato histórico, talvez o mais forte do coral da Piedade.”

Projeto Meio Ambiente Cultural

Colaboração: Cinara de Araújo Vila – Procuradora do Município de Novo Hamburgo

Fotos: Sérgio Jost