A morte no espelho.

Este é o último capítulo da série sobre o Meio Ambiente Cultural, que fiz para a Revista Expansão, um tema que nos possibilitou abordagens interessantíssimas durante o ano. Para encerrar, fui conversar com o Gilberto Franceschetti, do Grupo Krause, sobre cemitérios, o apelo cultural e emocional que exercem nas sociedades ocidentais e sobre como ele vê o futuro destes espaços.

Gilberto Franceschetti, quarta geração no comando da Krause.

A forma como lidamos com a morte veio se transformando com o decorrer do tempo. E nossa relação com os cemitérios mudou também. Nós, ocidentais, mantemos uma ligação profunda com a cultura do cemitério. No Brasil, muito apegado as suas raízes, essa relação é ainda mais intensa. O cemitério é nossa referência para homenagear os que já partiram. O formato tradicional vem, sim, perdendo espaço no mundo, afirma Gilberto, mas nunca vai deixar de existir.

“Túmulos monumentais, cemitérios-jardins ou verticais, isso tem cada vez menos relevância. No passado, construíam-se mausoléus como forma de demonstrar o poder das famílias. Existem verdadeiras obras de arte em cemitérios mundo afora, algumas valendo milhões, outras tombadas pelo Patrimônio Histórico. Mas queremos as coisas cada vez mais rápidas, o desapego é grande. A morte também vem sendo atropelada por esta velocidade. E isto está gerando, claro, novas tecnologias e diferentes alternativas.”

Na divisa de Novo Hamburgo e Campo Bom, Krause constrói cemitério vertical de três andares e 6.300 m².

Gilberto diz que já existe, nos Estados Unidos, um processo de decomposição em que o corpo vira adubo. A pessoa não é sepultada ou cremada, ela é colocada num container com algumas matérias, terra, serragem e decompõe organicamente. Os restos mortais viram adubo.

Mas existem as questões filosóficas, que não permitirão que os cemitérios tal qual conhecemos, desapareçam completamente: onde vou reencontrar e chorar por aquela pessoa? Onde ela está?  Na Alemanha, informa Gilberto, existe uma lei nacional de cremação que obriga que as cinzas fiquem dentro do cemitério. “Tu não podes levar para casa, não podes espalhar no lugar preferido do morto.”

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Além do simbolismo, há outros impactos relacionados aos cemitérios. Estudos indicam que o necrochorume proveniente da decomposição dos corpos pode atingir o lençol freático, causando contaminação. “As opções mais verdes, que causam menos impacto, serão as mais procuradas, como os cemitérios verticais ecológicos, que hoje são os únicos que cumprem rigorosamente a Resolução Conama 335, que trata da regulamentação e licenciamento ambiental dos cemitérios.”

Gilberto acredita que a desmistificação da morte e a ressignificação dos cemitérios seja o caminho daqui para a frente. “Estamos construindo, no bairro Canudos, um novo espaço. As pessoas precisam perder o medo de entrar no cemitério. Enxergar o local como um lugar de conhecimento, de história, de desenvolvimento, de paz, acolhimento e lembrança. Precisamos aprender a falar da morte com mais leveza e saber que em algum momento vamos passar por uma perda. Os orientais sabem tratar deste assunto muito bem.”

Grupo Krause: uma empresa familiar com 97 anos.

Muitas mudanças para esses empreendimentos ainda estão por vir, e cada vez mais voltadas para a preservação do meio ambiente. Mas as experiências na visitação representam o principal desafio. “Mostras de arte, caminhadas noturnas, espaços para cursos, aulas de música, etc, são ações que podem fazer com que as pessoas vejam os cemitérios como um lugar mais simpático e compreendam que ali não existe só morte. Também existe vida lá dentro”, conclui.

Colaboração: Cinara de Araújo Vila – Procuradora do Município de Novo Hamburgo.

Fotos: Divulgação

 

4 thoughts on “A morte no espelho.”

  1. Oi Jorge! Muito interessante o relato da Krause. A arte cemiterial, as Lápides e os epitafios são motivos para estudos e rendem bons assuntos acadêmicos. Eu mesma tenho artigo sobre isto. Lembro por aqui ainda que o cemitério de Hamburgo Velho faz parte da área tombada pelo IPHAN e portanto, é patrimônio cultural nacional.

  2. Quanto ao teu artigo sobre cemitérios, achei muito interessante. Só não gostei da idéia dos Estados Unidos …. Algumas pessoas realmente não abrem mão de serem enterradas e terem uma lápide bonita. Eu já deixei claro minha vontade; quero ser cremada e minhas cinzas jogadas no mar, um lugar que sempre amei. Parabéns pela reportagem.👏👏👏👏

  3. Interessantíssima matéria. A morte, apesar de cotidiana, é permanentemente negada. No entanto, quando nos permitimos encará-la, é ela que valida nossos investimentos em vida e nos direciona para o que realmente tem valor.

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