Sapatos vendidos em dúzias e negócios no fio do bigode.

Quando nossos antepassados começaram a produzir, negociar, expandir a história de Novo Hamburgo, há menos de um século, o mundo funcionava de forma diferente. Muito diferente. Mas é assim o processo de construção de conhecimento, de cultura, arte e tudo que faz a identidade de uma comunidade. Uma marca de produto que existe até hoje vivenciou toda esta tranformação e fui conversar com Maurício Klein, neto do fundador da Calçados Jacob, detentora da marca Kildare, e uma das fabricantes de calçados em atividade mais antigas do país.

Kurt Jacob e família.

Kurt Jacob, o avô do Maurício, foi um dos tantos alemães que vieram para o Brasil num período em que a Europa andava conturbada e não oferecia muitas perspectivas. Guarda-livros, tinha também uma facilidade grande para o relacionamento social e o trabalho manual. Em 1910, chegou ao Rio de Janeiro, ficou um tempo por lá, depois migrou para São Paulo, onde conheceu algumas famílias de alemães que estavam a caminho do Rio Grande do Sul e veio junto. Trabalhou aqui e ali e retornou para o seu país.

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 10 anos se passaram e em 1920 ele voltou ao Brasil, já pensando em ficar definitivamente. Veio, então, direto para o Rio Grande do Sul e logo teve o seu coração capturado por Tecla Saile, moça de uma família que já estava estabelecida. Sua família fazia tipografia e caixas de papelão para sapatos. Casou-se em 1923. Em dezembro de 1928, começou uma fábrica de botões, que era uma necessidade por aqui. Tinha como cliente principal a Alpargatas. “Mas logo percebeu que o calçado estava se desenvolvendo bem no Vale e então fundou a fabrica de sapatos, com o  apoio societário de Adolfo Jaeger”, conta Maurício.

“Passou a fazer calçados, mas não abandonou os botões, que utilizava nas sandálias. Na época ainda não existiam fivelas”, diz Maurício. E completa: “uma coisa interessante, que talvez poucos saibam, é que naqueles tempos, início da década de 60, o calçado era vendido por dúzia de pares para os clientes varejistas.”

Uma das fábricas de calçados mais antigas do país.

Todas fábricas daqui trabalhavam da mesma maneira. Os produtos, muito parecidos, eram enviados de navio para São Paulo, em caixas enormes de madeira. A casa construída por Kurt Jacob ficava onde, atualmente, é o Prontomed. Na Marcílio Dias, onde foi e continua instalada a sede da fábrica, já havia o arroio Luiz Rau, obviamente. Só que na época não tinha ponte sobre o arroio e um sujeito se encarregava de atravessar o pessoal na garupa para chegarem com os pés secos no outro lado. Dá pra imaginar isso? Era assim a nossa Novo Hamburgo.

“O meu avô, fazia o padrão. Aí entraram meu pai e o meu tio na fábrica, no final da década de 60. Havia a necessidade de fazer um produto diferente, de custo acessível. Como tinha muita disponibilidade de couro branco e no Rio de Janeiro sapato branco vendia bem, apostaram. Os produtos venderam muito para lojas que colocavam em hospitais e, assim, criou-se um mercado.”

Terceira e quarta geração: da esquerda para a direita, Eduardo, Andressa, Maurício (filho) e Maurício (pai).

A marca Kildare foi criada quando tiveram que se diferenciar não só nos produtos, mas como empresa. A inspiração veio de um seriado onde a estrela era um médico, o Dr. Kildare. Como os sapatos eram brancos, o personagem era um modelo de conduta, adotaram o nome Kildare. A partir daí, a marca foi evoluindo, passou a ser reconhecida pela qualidade e está aí até hoje, como uma referência do sucesso empreendedor dos nossos representantes.

Colaboração: Cinara de Araújo Vila – Procuradora do Município de Novo Hamburgo

Fotos: Divulgação

5 thoughts on “Sapatos vendidos em dúzias e negócios no fio do bigode.”

  1. Histórias como esta nos fazem perceber o quão ricos somos, enquanto comunidade hamburguense, pois temos o que contar para as novas gerações.
    Muito obrigada por compartilharem sua caminhada conosco.
    Parabéns, pela bela “aventura” vivida.

  2. Compartilho o pensamento de Nargel Kirsh: o quão rico é Novo Hamburgo sob o aspecto cultural, histórico e artístico. Muita arquitetura, belas paisagens, patrimônio cultural e pessoas com tradição de trabalho, arte e educação. Viva o Projeto MEIO AMBIENTE CULTURAL. Parabéns, Jorge! Essa bela iniciativa rende muito. Rendimento e merecimento.

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