Reminiscências sobre um visionário: Ernest Sarlet

Para relembrar alguns e não deixar esquecer a outros o seu nome e a sua visão, fui tomar um café com a professora Traude. Traude Schneider conheceu e conviveu com o professor Sarlet, uma das mentes mais privilegiadas e respeitadas do nosso passado recente. Homem de temperamento forte, criado no Velho Mundo, enfrentou uma grande guerra e, quando desembarcou por aqui, trazia gravado na alma as razões pelas quais deveríamos trabalhar para não permitir que acontecesse entre nós, aquilo que vivenciara.

Prof. Ernest Sarlet, um belga apaixonado pelo Brasil e pela natureza.

A professora Traude conta que Sarlet era um homem de muita cultura, que contribuiu decisivamente para o que nós somos. Chegou na Fundação Evangélica em 1955 e a primeira aula que deu foi de história, para a turma dela. Era um dos tantos professores que vieram fugidos da guerra ou depois dela para viver aqui. Acreditava num homem melhor, num ser humano inteiro, com conhecimento, com cultura, com respeito pela natureza.

“Ele atuou muito tempo como professor e fez carreira na Fundação Evangélica. Chegou a Diretor Geral. Trabalhou fortemente na modernização das relações, fortaleceu os Círculos de Pais e Mestres e gestou a criação de uma nova estrutura: a Instituição Evangélica.” O conhecimento, a filosofia, o caminho que ele queria para a educação causava encantamento.

Como Secretário de Educação de Novo Hamburgo implementou o conceito “do aipim ao computador” nas escolas.

Foi por isso que Traude e outra ex-aluna, Berlize Ko Freitag, aceitaram o convite para trabalhar com o professor e assumiram a vice-direção em outras unidades sob a sua batuta, que eram das comunidades religiosas de Hamburgo Velho e Novo Hamburgo.   Cada uma cuidava do seu perfil de cliente, mas todas trabalhavam sob um mesmo propósito.

“Foi um trabalho complexo, dele e de nós duas, transformar três escolas em uma só, com um pensamento só. Tínhamos que trazer as colegas das outras unidades como irmãs”, lembra a professora Traude. No início do ano, Sarlet organizava um seminário com as três escolas. Falava ele e quem mais fosse necessário para apresentar os propósitos do ano. Depois, cada escola trabalhava o seu método, sabendo que fazia parte de uma unidade. E tinha que prestar contas.

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 Sua política era uma educação integral. Ele defendia que nós temos que ensinar o aluno a ser um cidadão, cuidar da sua cidade, da sua escola, do meio ambiente, da arte e de si mesmo. Os pais o respeitavam enormemente. Sobre política na escola, Sarlet pregava que somos todos cidadãos políticos, mas não podemos fazer política partidária dentro da escola.

O professor Sarlet trouxe para Novo Hamburgo o grande incentivo da escola de educação infantil. Na Alemanha, havia a “kindergarten” – Jardim de infância, e ele replicou. Introduziu nas escolas o psicólogo, o supervisor escolar. A informática. As professoras eram motivadas ao trabalho porque ele dava condições de estudo, aprimoramento. Pouco se sabia sobre educação infantil até sua chegada.

Profª. Traude Schneider

Traude afirma: “ele era um visionário. O prefeito Atalíbio Foscarini, que também olhava adiante, que queria uma Novo Hamburgo próspera, teve a sensibilidade de convidá-lo para Secretário de Educação. Sarlet trouxe a informática para o ensino municipal, com o conceito “Do aipim ao computador”. Do Distrito Rural de Lomba Grande ao centro da cidade, todas as escolas deveriam dar acesso ao computador.”

“O que será que o professor Sarlet pensaria da educação hoje? É um boa pergunta para os pais e educadores responderem”, reflete a professora Traude.

Colaboração: Cinara de Araújo Vila – Procuradora do Município de Novo Hamburgo

Fotos: Divulgação

 

 

9 thoughts on “Reminiscências sobre um visionário: Ernest Sarlet”

  1. Ótima reportagem! Está fazendo falta o Prof. Sarlet. Um “Mentor” digno que ainda faz a história e deixou legado e ensinamentos que precisam urgentemente serem incorporados e entendidos por todos! Especialmente na Ampla área da Educação e Administração Pública! 🤗👏🏽👏🏽👏🏽

  2. Quem passou por ele nunca mais o esqueceu. Marcou vidas, mudou pensamentos, além de tudo um sociólogo e porque não tambem filósofo , certamente uma grande alma. Saudades

  3. Um educador de tão grande vivência e até mesmo,obstinação pela formação do caráter do aluno,antes mesmo de sua cultura,como Ernest Sarlet o foi, só pode deixar uma marca indelével. Eu fui seu aluno, e posso afirmar.

  4. A educação de NH não foi mais a mesma sem a visão deste grande homem. Tive o privilégio de ter ele como secretário de educação e vi o brilho em seus olhos ao falar da Educação Infantil e dos alunos de nossa cidade. Faz falta mais idealistas e pessoas visionárias, capazes de sonhar e colocar em prática sonhos tangíveis que façam da Educação de nossa cidade grande outra vez!

  5. Como é bom ler sobre pessoas e sobre a força da história. Assim como na educação de Novo Hamburgo, o professor Sarlet criou junto com a Tia Lia (como a chamávamos), uma ONG para defender os direitos das crianças. A OMEP, que esse ano completa seus 30 anos. Ele foi o primeiro presidente. Um visionário que passou pelos horrores da guerra e trabalhou para dar educação a todos. Parabéns pela reportagem.

  6. Muito oportuno o texto no mes em que o Prof. Sarlet aniversaria (17.08.32). Tive oportunidade de conviver com ele. Revivi momentos, lendo o texto… Obrigada!

  7. Parabéns pela reportagem. Muito bom e não podemos esquecer de pessoas tão especiais como foi o Prof. Sarlet. Lembro que em uma palestra dele e novamente de ter ouvido ele dizer em uma visita na Azaléia que ” Atrás da máquina tem um homem”. Com ele aprendi o valor da simplicidade, assim como ele era. Simples e descomplicado. Dedicado e exigente.

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