Uma escola só para garotas.

Entrevistei a professora Traude Schneider recentemente para a minha coluna na revista Expansão, que circula neste mês. O assunto foi o professor Sarlet e a contribuição enorme que ele nos deixou. Vale a pena ler. Mas para falar dele, a profª. Traude acabou me dando uma aula de história magnífica sobre a Fundação Evangélica e, consequentemente, sobre nosso passado nem tão longínquo assim.

Turma que concluiu em 1957 o curso ginasial na Fundação Evangélica, em Hamburgo Velho.

Em 1886, as irmãs Lina e Amálie Engel adquiriram um prédio pertencente a Jacob Kroeft para instalar uma escola para moças. A profª. Traude acredita que deviam ser umas 25/30 moças estudando ali naquele prédio que deu origem à Fundação Evangélica que depois passou a ser o Lar das Meninas.  “Naquele tempo, as meninas saiam da escola e iam para o culto na igreja do relógio de Hamburgo Velho”, conta.

Em 1952, o Ginásio era o forte da Fundação e tinha um curso chamado Economia Doméstica. Esse curso era ministrado para moças que chegavam de todo o Brasil. Vinham para se aculturar e, pasmem, aprender a ser donas de casas. Elas aprendiam a engomar roupa, a cozinhar com primor para, quem sabe, tornarem-se esposas de políticos ou empresários.

A Evangelisches Stift. Uma escola feminina evangélica alemã no cenário educacional brasileiro.

As meninas eram preparadas para atuar no lar e no ambiente social, me disse a professora Traude. Hoje isto é impensável, mas naquela época não era nenhum absurdo, não. Do contrário, era o máximo, porque as futuras senhoras estudavam história, inglês, alemão, francês, além de economia doméstica.

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Jorge Trenz
  “Outra característica da Fundação ero o meio-ambiente”, relembra a profª. Traude. E por que isso? Os professores eram todos alemães, que vieram fugidos da guerra ou depois dela. Tinham como filosofia um ser humano inteiro, que cuida da natureza, que cuida da arte, que cuida de si. E ensinavam isso.

“Tem um morrinho nos fundos da Fundação com todas as árvores catalogadas com o nome cientifico”, diz a profª. Traude. “Uma vez nós fomos ao Morro de Dois Irmãos a pé, olhando a natureza, mas não podia pegar nada. Os professores tinham quase uma reverência pela natureza.”

A Casa das Artes foi o local escolhido para essa viagem cultural.

O estimulo às artes era outra característica forte dos mestres alemães. “Nós tínhamos um professor de música que tocava piano e cantava. Ele fez um caderno com todo o folclore brasileiro, de norte a sul. Cantávamos tudo em vozes.

Outra prática era ouvir música num toca discos, em profundo silêncio. E o que ele queria ensinar? Sermos espectadores, que hoje é uma coisa tão difícil para as pessoas.”

Uma curiosidade para encerrar essa aula da professora Traude: a família austríaca Von Trapp (The Sound of Music (bra: A Noviça Rebelde; prt: Música no Coração), se apresentou na Fundação Evangélica. Eles fugiram pela perseguição da guerra e se apresentavam cantando pelo mundo.  Estiveram entre nós, como o saudoso professor Sarlet, que nos proporcionou, pós-morte, esta conversa e a oportunidade de aprendermos mais um pouco sobre nós mesmos.

Colaboração: Cinara de Araújo Vila – Procuradora do Município de Novo Hamburgo

Fotos: Divulgação

 

 

8 thoughts on “Uma escola só para garotas.”

  1. Parabéns Jorge por trazer mais um pouco da nossa história numa matéria tão rica , com uma pessoa tão especial como D. Traude, que tive o privilégio de ter como professora! Pessoas que nos marcam pelos ensinamentos para a vida toda! Obrigada!!

  2. Que belíssima abordagem histórica e cultural. Reverência pela natureza, cuidado com o belo, a arte, as habilidades manuais, os idiomas – comunicação e ação – uma educação primorosa. Inesquecível momento este de apresentação da família austríaca Von Trapp(que foi TEMA do filme NOVIÇA REBELDE). Sensacional resgate! Parabéns, querido Jorge. Sucesso!

  3. Há um tempo atrás,ou seja na minha infância, eu me sentava ao redor de um fogão a lenha ouvindo as histórias que minha vó contava eu lembro que eu e meus irmãos ficávamos quietos e prestando muita atenção pq sempre tinha um ensinamento. Parabéns Jorge por essa matéria inrrequecedoura e que sempre vem resgatar momentos tão sublimes de nossa história. Abraço…

  4. Jorge, a matéria está fiel à nossa agradável conversa na cafeteria da Casa das Artes. Oportunizou-me reviver tempos memoráveis da querida Fundação Evangélica! Sou grata pela oportunidade de frequentar uma instituição de ensino, a frente do seu tempo pois, praticava a educação integral isto é, informava e formava, em termos da abrangência no que ensinava, no que se vivia no ambiente escolar: cultura geral, educação ambiental e relações , interpessoais, com respeito e consideração.
    Não era tudo perfeito mas, marcou pelo que ficou para a vida.
    Gratidão eterna aos mestres pelos acertos e pelo que não foi tão bom mas que. também ensinou!

  5. Parabéns por mais essa excelente matéria sobre o ensino de uma escola
    Que se preparou e que com certeza fez o melhor para as suas alunas.

  6. Tive o privilégio de conviver com a D. Traude e o Prof. Sarlet. Professores
    Maravilhosos e pessoas com muita visão.
    Agradáveis lembrancas tive ao ler este texto. Voltei no tempo , e pude perceber muitos frutos colhidos nestes anos de trabalho.
    Ao ler o texto para minha mae , ela ficou feliz , verbalizando: “-Como o prof. Sarlet foi importante para Novo Hamburgo.
    Obrigada.

  7. Muito bom! Gostei muito da entrevista!
    A minha tia Ilza Moojen foi professora, no Stift, que era como chamavam a Fundação Evangélica.Ela traduziu, para o Português, inúmeros livros, escritos em Alemão, sobre nutrição e cuidados domésticos.Quanto a vinda da Família Trapp, já comentei uma vez, no Face, e publiquei duas fotos, nas quais eles estão no Colégio Sinodal, de São Leopoldo, onde também se apresentaram.

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