Sapatos vendidos em dúzias e negócios no fio do bigode.

Quando nossos antepassados começaram a produzir, negociar, expandir a história de Novo Hamburgo, há menos de um século, o mundo funcionava de forma diferente. Muito diferente. Mas é assim o processo de construção de conhecimento, de cultura, arte e tudo que faz a identidade de uma comunidade. Uma marca de produto que existe até hoje vivenciou toda esta tranformação e fui conversar com Maurício Klein, neto do fundador da Calçados Jacob, detentora da marca Kildare, e uma das fabricantes de calçados em atividade mais antigas do país.

Kurt Jacob e família.

Kurt Jacob, o avô do Maurício, foi um dos tantos alemães que vieram para o Brasil num período em que a Europa andava conturbada e não oferecia muitas perspectivas. Guarda-livros, tinha também uma facilidade grande para o relacionamento social e o trabalho manual. Em 1910, chegou ao Rio de Janeiro, ficou um tempo por lá, depois migrou para São Paulo, onde conheceu algumas famílias de alemães que estavam a caminho do Rio Grande do Sul e veio junto. Trabalhou aqui e ali e retornou para o seu país.

É Negócio? Confira
Jorge Trenz
 10 anos se passaram e em 1920 ele voltou ao Brasil, já pensando em ficar definitivamente. Veio, então, direto para o Rio Grande do Sul e logo teve o seu coração capturado por Tecla Saile, moça de uma família que já estava estabelecida. Sua família fazia tipografia e caixas de papelão para sapatos. Casou-se em 1923. Em dezembro de 1928, começou uma fábrica de botões, que era uma necessidade por aqui. Tinha como cliente principal a Alpargatas. “Mas logo percebeu que o calçado estava se desenvolvendo bem no Vale e então fundou a fabrica de sapatos, com o  apoio societário de Adolfo Jaeger”, conta Maurício.

“Passou a fazer calçados, mas não abandonou os botões, que utilizava nas sandálias. Na época ainda não existiam fivelas”, diz Maurício. E completa: “uma coisa interessante, que talvez poucos saibam, é que naqueles tempos, início da década de 60, o calçado era vendido por dúzia de pares para os clientes varejistas.”

Uma das fábricas de calçados mais antigas do país.

Todas fábricas daqui trabalhavam da mesma maneira. Os produtos, muito parecidos, eram enviados de navio para São Paulo, em caixas enormes de madeira. A casa construída por Kurt Jacob ficava onde, atualmente, é o Prontomed. Na Marcílio Dias, onde foi e continua instalada a sede da fábrica, já havia o arroio Luiz Rau, obviamente. Só que na época não tinha ponte sobre o arroio e um sujeito se encarregava de atravessar o pessoal na garupa para chegarem com os pés secos no outro lado. Dá pra imaginar isso? Era assim a nossa Novo Hamburgo.

“O meu avô, fazia o padrão. Aí entraram meu pai e o meu tio na fábrica, no final da década de 60. Havia a necessidade de fazer um produto diferente, de custo acessível. Como tinha muita disponibilidade de couro branco e no Rio de Janeiro sapato branco vendia bem, apostaram. Os produtos venderam muito para lojas que colocavam em hospitais e, assim, criou-se um mercado.”

Terceira e quarta geração: da esquerda para a direita, Eduardo, Andressa, Maurício (filho) e Maurício (pai).

A marca Kildare foi criada quando tiveram que se diferenciar não só nos produtos, mas como empresa. A inspiração veio de um seriado onde a estrela era um médico, o Dr. Kildare. Como os sapatos eram brancos, o personagem era um modelo de conduta, adotaram o nome Kildare. A partir daí, a marca foi evoluindo, passou a ser reconhecida pela qualidade e está aí até hoje, como uma referência do sucesso empreendedor dos nossos representantes.

Colaboração: Cinara de Araújo Vila – Procuradora do Município de Novo Hamburgo

Fotos: Divulgação

PONTO DE VISTA: Um patrimônio cultural e natural que faz tudo em volta se valorizar.

“Do Central Park, quando criado, ouviam-se opiniões imobiliárias do tipo: muito distante de tudo, não é negócio. Hoje é uma das regiões mais valorizadas do mundo.”

Num café com a Procuradora do Município de Novo Hamburgo, Cinara de Araújo Vila, colaboradora no projeto MAC – Meio Ambiente Cultural, que escrevo mensalmente na revista Expansão, surgiu o assunto dos melhores parques do mundo. E aí a conversa enveredou para o nosso Parcão.

Com 54,1 hectares de muito verde, o parque, com certeza, é um dos influenciadores da valorização imobiliária do entorno. Tomando por base o desempenho de regiões semelhantes no mundo, como consultor imobiliário, posso afirmar, sem sombra de dúvidas, que investir ali é bom negócio. E existem muitas oportunidades. Nos últimos anos, foram investidos 4 milhões em obras de estruturação do parque e o apreço por ele só aumenta. A ampliação do hospital Unimed é outro fator que vai influenciar o metro quadrado por ali.

É Negócio? Confira
Jorge Trenz
  O local fazia parte dos lotes divididos em 1825, no início da colonização alemã, e fica dentro do centro histórico de Hamburgo Velho, numa área maior que o Parque da Redenção, na capital. Ele abriga várias espécies da flora e da fauna da região.  É uma unidade de conservação municipal, envolve patrimônio histórico, patrimônio cultural e natural.

A aquisição das terras que formam o parque foi uma decisão tomada pelo Executivo a partir da mobilização da população hamburguense. Mais uma vez “a comunidade”. Não é incrível isso? Em 1986, uma comissão denominada “Grupo do Parque” reuniu-se com o então prefeito Atalíbio Foscarini e foi dado início à campanha comunitária que reuniu 4.304 assinaturas num abaixo-assinado. Naquele tempo tinha-se que, praticamente, bater de casa em casa para buscar adesão.

Foram anos de luta até que, em 19 de fevereiro de 1990, o prefeito Paulo Ritzel adquiriu a área por quarenta milhões de cruzeiros novos. O patrimônio é de toda a cidade, mas vale muito e cada vez mais para quem paga IPTU por ali. Fica a dica do Ponto de Vista do mês.

 

 

O cravo, a rosa e a rosinha.

Outubro se avizinha e já faz desabrochar na mente da Therezinha lembranças que compõem sua história de empreendedorismo, que vai completar 40 anos. Mulher aguerrida, virou empresária quando percebeu que o ramo do marido, a alfaiataria, perdia espaço para as lojas de vestuário que pipocavam por Novo Hamburgo lá em 1979. Fui visitar a velha amiga, relembrar outras épocas e, na volta para casa, trouxe junto seu exemplo de superação.

Para as empreendedoras, a criatividade é saber misturar tudo o que se ama e inovar com novos serviços.

Therezinha Chassot é a fundadora da floricultura mais tradicional de Novo Hamburgo: a Rosinha Decorações. Em 79, percebendo o movimento de renovação no comércio do vestuário, área de atuação do esposo, preocupou-se logo com o bem-estar da sua família e passou a pensar num jeito de ajudar a garantir o orçamento familiar. As flores lhe mostraram o caminho.

“Na região que habitávamos não tinha muita coisa, mas sabia que os vizinhos gostavam de enfeitar as casas, presentear as pessoas… Aí pensei: – Com uma loja de flores poderia facilitar a vida deles e isso poderia ser bom para nós também. Me associei com uma sobrinha e combinei com o Rafael, meu marido, que trabalharia meio ano. Se desse certo, continuaria. Se não desse, encerrava o negócio.”

O ponto de partida foi sua própria casa. Na véspera da inauguração, as flores estavam chegando e com elas, chegou também o representante de uma funerária que ficava próxima. Encomendou, de pronto, 3 coroas. “Quando a gente abriu, no dia seguinte, as vizinhas vieram logo. As pessoas que frequentavam a casa mortuária também viam que no outro lado da rua tinha uma floricultura e isso ajudou a disseminar o nome. Ficou bem visitada a nossa casa.”

O tradicional buquê de flores naturais ainda é a grande preferência das noivas.

Naquela época, as flores mais nobres eram as rosas e os cravos, e as mais comuns, os crisântemos. Na inauguração, lembra Therezinha, foram vendidas quase todas as flores da loja para vizinhos e velórios. As salas mortuárias ficavam onde, atualmente, é o Centro Clínico Regina. Um ano e quatro meses depois, Kátia, sua filha, ingressou como sócia na empresa, tornando-a familiar e ajudando no seu desenvolvimento institucional e comercial.

É Negócio? Confira
Jorge Trenz
  A Rosinha Decorações orgulha-se de manter um conceito de inovação em produtos, com buquês e arranjos com design sempre atuais e uma participação destacada em decorações de eventos pela região. Ela foi precursora no serviço de Assinatura de Flores no Vale dos Sinos.

Para Kátia Schu, Hamburgo Velho é um bom lugar para empreender. “É um bom bairro, com grande fluxo de pessoas, economicamente diversificado, com comércio durante o dia e entretenimento à noite. Escolas no seu entorno, referências na área de saúde. Tudo isso, garante uma boa circulação de público.”

Cada decoração deve ser contada de forma única, pois dessa maneira se tornará uma experiência personalizada.

Em termos imobiliários, Kátia diz que vale a pena investir. “A valorização dos prédios, terrenos, residências e comércio é crescente e tem potencial para mais”, afirma. Na perspectiva dos empreendedores, sugere: “seria muito bem-vinda uma padaria e confeitaria, assim como uma sorveteria, em especial para a rua General Osório. Uma lotérica também seria uma boa pedida. Sentimos falta desse tipo de serviço. ”

Fotos: Divulgação

 

 

 

Reminiscências sobre um visionário: Ernest Sarlet

Para relembrar alguns e não deixar esquecer a outros o seu nome e a sua visão, fui tomar um café com a professora Traude. Traude Schneider conheceu e conviveu com o professor Sarlet, uma das mentes mais privilegiadas e respeitadas do nosso passado recente. Homem de temperamento forte, criado no Velho Mundo, enfrentou uma grande guerra e, quando desembarcou por aqui, trazia gravado na alma as razões pelas quais deveríamos trabalhar para não permitir que acontecesse entre nós, aquilo que vivenciara.

Prof. Ernest Sarlet, um belga apaixonado pelo Brasil e pela natureza.

A professora Traude conta que Sarlet era um homem de muita cultura, que contribuiu decisivamente para o que nós somos. Chegou na Fundação Evangélica em 1955 e a primeira aula que deu foi de história, para a turma dela. Era um dos tantos professores que vieram fugidos da guerra ou depois dela para viver aqui. Acreditava num homem melhor, num ser humano inteiro, com conhecimento, com cultura, com respeito pela natureza.

“Ele atuou muito tempo como professor e fez carreira na Fundação Evangélica. Chegou a Diretor Geral. Trabalhou fortemente na modernização das relações, fortaleceu os Círculos de Pais e Mestres e gestou a criação de uma nova estrutura: a Instituição Evangélica.” O conhecimento, a filosofia, o caminho que ele queria para a educação causava encantamento.

Como Secretário de Educação de Novo Hamburgo implementou o conceito “do aipim ao computador” nas escolas.

Foi por isso que Traude e outra ex-aluna, Berlize Ko Freitag, aceitaram o convite para trabalhar com o professor e assumiram a vice-direção em outras unidades sob a sua batuta, que eram das comunidades religiosas de Hamburgo Velho e Novo Hamburgo.   Cada uma cuidava do seu perfil de cliente, mas todas trabalhavam sob um mesmo propósito.

“Foi um trabalho complexo, dele e de nós duas, transformar três escolas em uma só, com um pensamento só. Tínhamos que trazer as colegas das outras unidades como irmãs”, lembra a professora Traude. No início do ano, Sarlet organizava um seminário com as três escolas. Falava ele e quem mais fosse necessário para apresentar os propósitos do ano. Depois, cada escola trabalhava o seu método, sabendo que fazia parte de uma unidade. E tinha que prestar contas.

É Negócio? Confira
Jorge Trenz
 Sua política era uma educação integral. Ele defendia que nós temos que ensinar o aluno a ser um cidadão, cuidar da sua cidade, da sua escola, do meio ambiente, da arte e de si mesmo. Os pais o respeitavam enormemente. Sobre política na escola, Sarlet pregava que somos todos cidadãos políticos, mas não podemos fazer política partidária dentro da escola.

O professor Sarlet trouxe para Novo Hamburgo o grande incentivo da escola de educação infantil. Na Alemanha, havia a “kindergarten” – Jardim de infância, e ele replicou. Introduziu nas escolas o psicólogo, o supervisor escolar. A informática. As professoras eram motivadas ao trabalho porque ele dava condições de estudo, aprimoramento. Pouco se sabia sobre educação infantil até sua chegada.

Profª. Traude Schneider

Traude afirma: “ele era um visionário. O prefeito Atalíbio Foscarini, que também olhava adiante, que queria uma Novo Hamburgo próspera, teve a sensibilidade de convidá-lo para Secretário de Educação. Sarlet trouxe a informática para o ensino municipal, com o conceito “Do aipim ao computador”. Do Distrito Rural de Lomba Grande ao centro da cidade, todas as escolas deveriam dar acesso ao computador.”

“O que será que o professor Sarlet pensaria da educação hoje? É um boa pergunta para os pais e educadores responderem”, reflete a professora Traude.

Colaboração: Cinara de Araújo Vila – Procuradora do Município de Novo Hamburgo

Fotos: Divulgação

 

 

A oficina era o paraíso para Pussuka antes mesmo dos 10 anos

Seu apelido ele gravou na história sobre rodas da cidade. Se tem uma oficina que acompanha a evolução de carros, motos e agora até caminhões, da mecânica à lataria, sendo a mesma referência em serviços há mais de 50 anos em Novo Hamburgo, esta assina Pussuka. Tudo começou com um menino metido que aos 8, 9 anos de idade, via a oficina de um amigo da família como o próprio paraíso. Ficava lá até escurecer.

Samuca e Pussuka, filho e pai, 50 anos de história.

“Lá em 68 eu trabalhava com o Antônio Ventre e, à noite, eu trabalhava em casa. Depois fui para Ford, de onde saí em 72. Como já tinha a oficina montada, resolvi partir para o meu próprio negócio. Começou muito devagar, muito lento, na casa do pai, lá na rua Anchieta. Depois fomos crescendo e em 1980 vim para cá, onde estou até hoje.”

É Negócio? Confira
Jorge Trenz
 A Pussuka Mecânica de Automóveis se repete com Samuel, o “Samuca”, seu filho. “Estudava e depois ajudava na oficina.” Samuca também foi se apaixonando pelo negócio, se infiltrando na oficina do pai, querendo dar opiniões. E amava os turbos. Nos finais de semana, Samuca se trancava na oficina buscando se aprimorar. “Quando entrou aqui, ele tinha uma inclinação forte por mecânica, fazia coisas nos carros que ninguém fazia. Como eu.”

Moto customizada para São Paulo.

“Sempre gostamos de competições. Quando o Samuca era mais novo, competiu com Kart, protótipos. Venceu campeonatos brasileiros, gaúchos. A gente não tinha equipe, éramos somente nós, pai e filho. Lembro que ele descia do carro, baixava o macacão e já se enfiava debaixo do auto ou dentro do motor, procurando maneiras de melhorar desempenho, competitividade.” A produção de protótipos também sempre esteve na história de Pussuka, que atualmente incorporou mais uma especialidade sobre rodas: a customização de motos.

A oficina, hoje, está também no segmento  de caminhões. Samuca conta que diversificou porque o mercado muda e o empreendedor precisa acompanhar. Ele diz que Novo Hamburgo tem muitas oficinas, mas eles perceberam que oficinas de pesados eram poucas, embora a cidade tenha muito serviço de logística, por causa da exportação/importação.

Pussuka Auto Truck Center.

Pussuka considera que o bairro São Jorge é um bom lugar para empreender. “O bairro cresceu muito e a nossa rua deve muito ao Bagunça, que atuou junto ao prefeito Foscarini para trazer o calçamento e, mais tarde, o asfalto. Mas acha que falta uma praça, isso melhoraria ainda mais, deixaria o São Jorge mais atrativo. “Aqui não tem lugar para as crianças brincarem… os pais precisam sair do bairro.”

Fotos: Divulgação

 

 

Bem antes de ser dono de revista, foi engraxate, chapa de caminhão e sonhador.

A trajetória de Sérgio Jost, empresário que está à frente da revista Expansão há 20 anos, é um exemplo de persistência e de como vale a pena lutar por objetivos na vida. Ao lado da esposa, Ana, ele continua trabalhando muito, sorrindo sempre e acordando cedo. Aproveita para caminhar pela cidade e pensar. Um ser humano agradabilíssimo, um profissional exemplar que vem contribuir com o projeto “Empreendendo nos bairros”.

Sérgio e Ana, o casal que lidera a Revista Expansão.

“Minha responsabilidade começou muito cedo. Nossa família era bem humilde, bem pobre.” O pai trabalhava numa indústria fumageira, a mãe também. O casal, sozinho, não dava conta deles e dos filhos. Trabalhar, portanto, não era nem uma escolha, era uma necessidade para manter-se vivo, disse-me o Sérgio.

É negócio? Confira
Jorge Trenz
 Aos 9 anos de idade, sem alternativas, foi ser engraxate. Aos 12 anos virou chapa de caminhão, aquele ajudante de carga e descarga. Trabalho duro para um homem feito, imagine para um menino. Mas não pensava nisso, eram outros tempos e comprar os cadernos, um lanche no colégio quando dava, era algo que, normalmente, dependia dele mesmo. Tinha que dar conta sozinho. E tinha consciência disso.

Aos 17 anos, cobrador de ônibus, viu sua linha envolvida num acidente violento de trânsito. Sérgio fez a cobertura da ocorrência e mandou para o jornal da cidade. Eles gostaram e o convidaram para ingressar no jornalismo. Ele já estava fazendo reportagens na rádio Santa Cruz. “Comecei como o cara que espichava os fios nos gramados de futebol. Depois entrei como repórter.” Ele trabalhou em vários veículos do interior, dirigiu outros e fundou o primeiro jornal de Vera Cruz, em 1986: o Vera-cruzense

Equipe atuante e coesa garante a qualidade da revista.

Em 1997 ele e Ana se casaram. Ana morava em Novo Hamburgo, trabalhava num banco e a transferência que pretendia, não se concretizou. Passou um ano indo a Santa Cruz do Sul aos finais de semana encontrar o marido. Aquilo era muito difícil e a obrigou a pedir demissão no banco. Foi trabalhar na revista, com o Sérgio. Em 1998, Gabriela nasceu. A partir daí, começaram a fomentar a ideia de ter uma revista em Novo Hamburgo, para ficar mais perto da família dela.

A primeira edição da revista Expansão do Vale circulou em 20 de dezembro de 1999. Ela depois mudou de cara, de nome e de sobrenome. Hoje é a Revista Expansão, de Novo Hamburgo, reconhecida no estado e no país. Consagrada com diversos prêmios do meio, a revista coroa uma trajetória profissional pontuada por diversos desafios para o Sérgio. Foram muitos empregos, muitas apostas, muitos tropeços, mas sempre olhando para frente. “As novas tecnologias influenciaram a linguagem jornalística. Ficou tudo muito dinâmico, mas eu continuo acreditando no veículo impresso que, por sinal, vem aumentando muito seu nível de credibilidade nas pesquisas”, diz.

Selo para lembrar da história e estimular o futuro.

Minha pergunta óbvia sobre o bairro: o Centro é um grande lugar para se empreender. “O quarteirão da Quintino Bocaiuva está virando, quase todo ele, comercial. É um espaço espetacular, com ruas, por enquanto, tranquilas. Muitos empreendedores estão vindo para fugir das ruas mais centrais, por causa do estacionamento, que aqui ainda não é uma dificuldade.”

“Uma das coisas boas é essa revitalização do Centro. Apesar de todas as dificuldades que os comerciantes sofreram no início. Quero aqui deixar uma sugestão para os proprietários dos imóveis: comecem também a se preocupar em revitalizar, pintar os seus prédios, dar uma nova característica para a cidade. Valorizar. E para o poder público eu sugeriria: coloquem muitas lixeiras. Eu caminho cedo e vejo sempre muito lixo jogado no chão: garrafas plásticas, latinhas, papel. Talvez com uma lixeira logo a frente…

Fotos: Divulgação

 

 

PONTO DE VISTA. O Centro das atenções 

Mais de 400 dias se passaram desde que homens metidos em macacões invadiram, com suas máquinas, o coração da nossa cidade. Sem dó nem piedade, abriram crateras imensas, expondo as entranhas do centro para quem quisesse ver.  

Parecia uma calamidade. Enquanto uns esburacava ruas e avenidas, arrancavam calçadas, postes e a capa asfáltica, outros sobre a praça arrancavam as esculturas, os poucos bancos e proibindo a todos o acesso que sempre tiveram. Ícones centenários foram fechados e ninguém mais podia tomar ali um café, jogar conversa fora, olhar o tempo passar.  

Os comerciantes se assustaram, os transeuntes se afastaram, poucos queriam ver ou conviver com tal situação, com tanta destruição. Houve revolta, mas nada se podia fazer a não ser rezar e esperar que um dia, tudo aquilo acabasse e a vida voltasse ao normal.  

Flashes de imóvel à venda
Jorge Trenz
 Vivemos tempos difíceis. Mas o que parecia o fim, era apenas o início de algo muito melhor. Casa nova, vida nova. A cada manhã o centro de Novo Hamburgo vai acordando um pouco mais bonito, mais atraente, mais encantador. Há menos homens de macacões e mais pessoas como eu e você novamente circulando pelas ruas. Menos máquinas e mais cafés sendo servidos nas Bancas. Há de novo um chafariz na praça, e bancos, e academia, e as esculturas com suas histórias antigas. 

Ao que parece, os últimos trabalhadores que tanto assustaram, mas que tão bem fizeram ao Centro, estão se preparando para deixá-lo e entregá-lo à comunidade. Limpo, organizado, lindo, convidativo. O centro das atenções da cidade está voltando a ser o Centro. Que saibamos cuidá-lo bem, tratá-lo bem, como aqueles a quem se quer bem. 

 

Uma escola só para garotas.

Entrevistei a professora Traude Schneider recentemente para a minha coluna na revista Expansão, que circula neste mês. O assunto foi o professor Sarlet e a contribuição enorme que ele nos deixou. Vale a pena ler. Mas para falar dele, a profª. Traude acabou me dando uma aula de história magnífica sobre a Fundação Evangélica e, consequentemente, sobre nosso passado nem tão longínquo assim.

Turma que concluiu em 1957 o curso ginasial na Fundação Evangélica, em Hamburgo Velho.

Em 1886, as irmãs Lina e Amálie Engel adquiriram um prédio pertencente a Jacob Kroeft para instalar uma escola para moças. A profª. Traude acredita que deviam ser umas 25/30 moças estudando ali naquele prédio que deu origem à Fundação Evangélica que depois passou a ser o Lar das Meninas.  “Naquele tempo, as meninas saiam da escola e iam para o culto na igreja do relógio de Hamburgo Velho”, conta.

Em 1952, o Ginásio era o forte da Fundação e tinha um curso chamado Economia Doméstica. Esse curso era ministrado para moças que chegavam de todo o Brasil. Vinham para se aculturar e, pasmem, aprender a ser donas de casas. Elas aprendiam a engomar roupa, a cozinhar com primor para, quem sabe, tornarem-se esposas de políticos ou empresários.

A Evangelisches Stift. Uma escola feminina evangélica alemã no cenário educacional brasileiro.

As meninas eram preparadas para atuar no lar e no ambiente social, me disse a professora Traude. Hoje isto é impensável, mas naquela época não era nenhum absurdo, não. Do contrário, era o máximo, porque as futuras senhoras estudavam história, inglês, alemão, francês, além de economia doméstica.

É Negócio? Confira
Jorge Trenz
  “Outra característica da Fundação ero o meio-ambiente”, relembra a profª. Traude. E por que isso? Os professores eram todos alemães, que vieram fugidos da guerra ou depois dela. Tinham como filosofia um ser humano inteiro, que cuida da natureza, que cuida da arte, que cuida de si. E ensinavam isso.

“Tem um morrinho nos fundos da Fundação com todas as árvores catalogadas com o nome cientifico”, diz a profª. Traude. “Uma vez nós fomos ao Morro de Dois Irmãos a pé, olhando a natureza, mas não podia pegar nada. Os professores tinham quase uma reverência pela natureza.”

A Casa das Artes foi o local escolhido para essa viagem cultural.

O estimulo às artes era outra característica forte dos mestres alemães. “Nós tínhamos um professor de música que tocava piano e cantava. Ele fez um caderno com todo o folclore brasileiro, de norte a sul. Cantávamos tudo em vozes.

Outra prática era ouvir música num toca discos, em profundo silêncio. E o que ele queria ensinar? Sermos espectadores, que hoje é uma coisa tão difícil para as pessoas.”

Uma curiosidade para encerrar essa aula da professora Traude: a família austríaca Von Trapp (The Sound of Music (bra: A Noviça Rebelde; prt: Música no Coração), se apresentou na Fundação Evangélica. Eles fugiram pela perseguição da guerra e se apresentavam cantando pelo mundo.  Estiveram entre nós, como o saudoso professor Sarlet, que nos proporcionou, pós-morte, esta conversa e a oportunidade de aprendermos mais um pouco sobre nós mesmos.

Colaboração: Cinara de Araújo Vila – Procuradora do Município de Novo Hamburgo

Fotos: Divulgação

 

 

Uma janela para o futuro. O nosso futuro!

Uma palavra muito empregada entre gestores modernos de negócios e no marketing atual é “propósito”. Pois há 50 anos, o conceito já circulava entre nós e foi definitivo para a criação de uma das nossas mais brilhantes criações: a Feevale. Criada pela comunidade de Novo Hamburgo, nas atas das primeiras reuniões já estava escrito: “Queremos ter uma instituição que forneça condições para que nosso filhos e as pessoas daqui se desenvolvam e desenvolvam a cidade, as empresas”.

Para o reitor, a indústria criativa vai unir a arte tradicional com as novas tecnologias.

Cléber Prodanov, reitor da universidade, me revelou isso em entrevista para a revista Expansão e afirmou que a Feevale está cumprindo o que foi pensado para ela. E foi categórico quando disse que não dá pra falar de Novo Hamburgo nos últimos 50 anos sem falar da Feevale ou vice-versa. Sua história está absolutamente atrelada à cultura que nos formulou e isso é inquestionável.

É Negócio? Confira
Jorge Trenz
 Nós tivemos uma trajetória muito importante no calçado, o que criou as bases econômicas para outras coisas. E aí a Feevale se insere, qualificando o nosso desenvolvimento. Começou como uma faculdade isolada, transformou-se em centro universitário, agregou a pesquisa, o parque tecnológico, até virar universidade. Transformou Novo Hamburgo num polo universitário e ajudou a oficializar a cidade como centro regional.

“Estamos sendo um elemento integrador importante mesmo à distância e ajudando a forjar a cidade que queremos ser no futuro”, disse o reitor. Por isso a expansão. Hoje a nossa Feevale tem 10 polos aqui no Vale e mais um na China. Este braço chinês é para atender nossa gente que foi morar e trabalhar lá, quando perderam o emprego na área do calçado aqui. Ir ao encontro deles significa muito e a troca de conhecimentos que isso pode gerar é do nosso interesse, claro.

Espaço de atração e encontro de pessoas que querem experimentar e desenvolver a sua criatividade.

A fundação da Feevale, muitos vão lembrar, deu-se com o curso de Belas Artes. Agora, veja que interessante: esta tradição que temos na produção artística e cultural, movimento teatral, escultura, pintura, canto coral continua refletindo e influenciando a história da universidade. Nas palavras de Prodanov: “O mundo se transformou e a criação de um ambiente de cultura talvez não passe mais necessariamente pelas artes tradicionais, mas por aquilo que a gente chama de indústria criativa. A indústria criativa vai unir a arte tradicional com as novas tecnologias.”

Em dezembro do ano passado foi criado o Hub de Inovação e Criatividade. É um ambiente para gerar negócios voltado para a indústria criativa. Prodanov diz que “As carreiras do futuro não foram inventadas. As profissões do futuro não foram inventadas. Temos que atuar com visões mais transversais. E a Feevale tem que estar na frente disso, formando pessoas que tenham condições de ter uma atividade cada vez mais plural, e não atrás, atendendo a uma necessidade do mercado.”

Hub One, uma estrutura voltada às empresas e aos negócios vinculados à indústria criativa.

Perguntei ao reitor “O que a Feevale construiu e quer deixar para a eternidade?” A resposta dele não poderia ser mais motivadora. “A eternidade não é matéria é espirito. E o que podemos deixar para a eternidade é esse espírito que temos de inovar, renovar, transformar e de estar sempre a serviço da comunidade. Não virar uma coisa meramente comercial. É preciso sobreviver, mas não podemos virar as costas para a comunidade que nos criou. É muito fácil a gente esquecer e achar que é autossuficiente. Então se a gente fala em eternidade, é espirito, e o espirito é, então, comunitário.

Colaboração: Cinara de Araújo Vila – Procuradora do Município de Novo Hamburgo

Fotos:  Nadine Funck  e Ana Knevitz – Universidade Feevale/Divulgação

 

Eles têm um palácio na cidade e a loja de música mais antiga do país.

“Naqueles tempos estacionavam os bondes ao lado das bancas. Onde agora é a pracinha tinha um chafariz e nele, lavavam as garrafas da fábrica de bebidas de meu pai, as gasosas”, conta Ariane Brusius. Ela é filha de Albano Brusius e irmã de Alexandre, o parceiro com quem toca o negócio da família.

A loja conta com espaços amplos e setorizados.

O pai, Albano, conhecido antigamente por todos como Professor Vanzetti, era homem de negócios nato. Natural de Taquara, sempre esteve envolvido com a comercialização de alguma coisa. Vendia carvão e teve a fábrica de bebidas antes de adquirir no bairro Rio Branco, a loja de instrumentos musicais que é a mais antiga do Brasil! O Palácio da Música.

É Negócio? Confira
Jorge Trenz
 O Palácio pertenceu, inicialmente, ao Arno Bohn, da fábrica de Órgãos Eletrônicos e ao Breno Blum. Depois de um período o negócio foi encerrado e os instrumentos que não tinham sido vendidos foram guardados em um depósito “O Palácio da Música existe por causa de uma troca que meu pai fez com o seu Arno”, diz Ariane.

Certo dia o professor, que era proprietário de um carro Modelo A, deu carona para o seu Arno, coisa comum na Novo Hamburgo daqueles tempos em que o automóvel não era tão comum assim. Conversa vai, conversa vem, aos trancos e solavancos estrada afora, resolveram negociar. O Modelo A e os instrumentos do depósito trocaram de mãos.

Assim, começou uma linda história de empreendedorismo. 30 anos se passaram e a família Brusius, liderando o Palácio da Música, atraiu clientes de Novo Hamburgo, da região e de Porto Alegre. Foram três décadas com a loja funcionando em frente à antiga rodoviária. O local era de fácil acesso para os músicos e interessados e ganhou fama pelo repertório de instrumentos e acessórios que oferecia.

A equipe de profissionais faz do atendimento um dos grandes diferenciais.

Depois, mudou-se para a esquina do Shopping. “Nós fomos para lá antes de começarem a construí-lo. Ficamos 21 anos naquele endereço e agora estamos há 6 anos aqui na Cinco de Abril”, diz Ariane. Ela e o Alexandre ficaram sabendo que são os mais longevos do ramo no Brasil a pouquíssimo tempo, apesar dos 57 anos em cena. ”

“Nós não sabíamos, ganhamos esse prêmio em São Paulo no ano passado. A Tagima (empresa de instrumentos musicais) nos convidou para o encontro anual promovido por eles com parceiros e uns 500 lojistas do Brasil. No evento, eles fizeram uma surpresa e anunciaram o Palácio da Música como a loja mais antiga em funcionamento no Brasil.”

O cenário mudou. Atualmente, muitas pessoas usam a música para se completar. Nas suas 24 horas do dia a dia, querem ter algo que lhes acalme, como uma dança, aprender uma língua nova, fazer uma viagem… E muitos querem tocar um instrumento, não necessariamente ser um profissional. “As pessoas encontram aqui uma loja com tradição, pessoal especializado para ajudar e orientar”, orgulha-se.

Músicos de várias regiões do estado prestigiaram o aniversário de 57 anos.

A família Brusius mudou o endereço do Palácio algumas vezes, mas nunca trocou de bairro. Ariane e Alexandre concordam que o bairro Rio Branco é bom para trabalhar. Nas palavras dela: “as coisas funcionam, é tudo muito próximo e tu consegue resolver tudo por aqui. Tem problemas de estacionamento, por isso eu gosto dessa coisa do ticket, quando a pessoa pode ficar 15/20 minutos. Senão o sujeito passa o dia inteiro com o carro estacionado e quem tem comércio, que precisa do giro fica prejudicado.

Fotos: Divulgação